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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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11
Nov19

468 - Pérolas e Diamantes: A arte e a revolução

João Madureira

 

 

O cantor Ricardo Ribeiro (Respeitosa/Mente) acertou na mouche: “O entretenimento é para esquecer a vida. A Arte é para lembrar a vida.”

 

Eu sou intuitivamente flaubertiano, levando, para mal dos meus pecados, o cómico ao extremo, o cómico que não provoca o riso, o lirismo no gracejo. Aprecio desgastar as coisas, exprimir-me com uma espécie de cumplicidade com o desgaste da vida. Persegue-me o sentimento da futilidade e da desintegração.

 

Foi Flaubert quem associou a noção de arte a uma gloriosa futilidade.

 

O passado costuma retornar, mas não nos faz reviver. Apesar de belos, os pássaros são tolos.

 

A criação literária está cheia de amargas alegrias. Flaubert ensinou-nos que o artista é uma espécie de alquimista que fabrica beleza com a impureza da vida.

 

Nada na arte pode ser mesquinho. O estilo, por muito que custe a algumas almas sofridas, não é essencialmente uma proeza técnica, mas antes uma questão de visão. O estilo é a maneira “absoluta” de ver as coisas. É muito mais do que vocabulário e sintaxe. Mais do que substância verbal, é espírito. É ritmo e cadência. Também é precisão e vigor.

 

Flaubert desconfiou sempre das emoções pessoais: “Podemos ser senhores do que fazemos, mas nunca do que sentimos.” Até os eunucos se consomem no seu próprio desejo estéril.

 

A escrita de ficção é também uma forma de profanar os sonhos. Mas, por muito que nos custe, a solidão não confere beleza, apenas desenvolve as depressões.

 

Escrever é uma forma de sublimar a raiva que sentimos pelas coisas impossíveis. Todos somos vítimas fáceis da solidão e da incomunicabilidade. Mas só alguns a conseguem escrever e descrever.

 

São a paródia e a ironia que nos conduzem ao culto do artifício. É daí que nasce a boa literatura. Enriquecemos sempre com todas as ilusões que perdemos. O que é derrota para uns é vitória para outros.

 

Por vezes, ou quase sempre, a relação entre o positivo e o negativo, revela a dialética com que se alicerça a obra de arte. Cito d’ A Educação Sentimental: “Ele transportou para as artes o hábito... de parodiar o que mais lhe agradava, de depreciar aquilo de que mais gostava, rebaixando todas as grandezas e denegrindo todas as belezas, para ver se elas se erguem,  depois, em toda a sua grandeza e beleza primordial...”

 

Mas há gente tão enganada que teima em procurar “o odor das laranjeiras debaixo das macieiras”. Crítica e criação afirmam-se em simultâneo.

 

No ato da escrita, é bom evitar as emoções, pois todos sabemos que quanto menos sentimos uma coisa mais aptos estamos para a descrever.

 

Há coisas que as palavras não conseguem dizer e outras que elas devem encobrir. Até porque, como escreveu Flaubert: “A palavra humana é como um caldeirão rachado onde tocamos melodias de fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas.”

 

 

Nos bons escritores existe sempre uma tensão entre o estilo e o que ele pretende descrever. Nós vemos sempre aquilo que queremos ou aquilo que podemos. Nenhuma obra de arte se salva apenas pela forma.

 

As palavras são diferentes entre si. Umas não conseguem comunicar, no entanto existem outras que transformam os textos de forma irredutível. São elas que fazem com que D. Quixote se revele ao mesmo tempo patético e grandioso.

 

São os falsos movimentos aqueles que contribuem para a impressão opressiva da imobilidade. De facto, é o que as guerras são.

 

Eu sou daqueles que acredita no herói que nunca se torna heroico. Até porque o heroísmo é pouco divertido. É como ter uma experiência espiritual num cenário de banalidade. Perde-se o efeito de paródia. Fica apenas a leve intenção da ironia.

 

Flaubert assumiu muito bem a dupla perspetiva do amor e da revolução. E por separado. Até porque agora sabemos que uma coisa e outra se excluem simultaneamente. Por isso os dois amantes vão para Fontainebleau (A Educação Sentimental).  E enquanto os dois amantes se entregam ao prazer, grassam em Paris a revolução e o sofrimento. Só que a evasão não é possível.

 

Flaubert chega até ao ponto de jogar com o conceito de revolução, uma vez que invoca os grandes cataclismos naturais responsáveis pelo caos das rochas. Não se esquecendo de salientar o aspeto irrisório das alterações políticas e das agitações quotidianas.

 

E depois do coito lá vem o arrependimento: “Ficou indignado com este egoísmo; e censurou-se por não estar lá com os outros”.

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