Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2019

471 - Pérolas e Diamantes: O Merdas

 

 

A mãe de Deogracies-Miquel Gambus (A Felicidade, Lluís-Anton Baulenas)  obrigou o seu filho a tirar o curso de Direito com o argumento irrefutável de que “um advogado pode roubar e enganar mais com uma lei do que uma cambada de gatunos com uma pistola”, até porque enganar lhe estava na massa do sangue. E também porque tinha medo de que o seu único rebento vivo  pusesse a vida em perigo por qualquer bagatela: “uma mulher, uma rusga inesperada da polícia, uma bomba anarquista, etc.”

 

O seu bisavô, que tinha chegado à Catalunha no princípio do século XIX, acompanhando o regresso de Fernando VII, vindo de França, criou uma rede de poder que cresceu espetacularmente em poucos anos. Era o melhor a subornar e a usar bodes expiatórios, tendo sido dos primeiros a perceber que roubar informação era muito melhor do que roubar ouro.

 

Chegou a Presidente da Junta de Freguesia, mas durante uma crise liberal passou um mau bocado. Foi julgado e preso. A sua fama aumentou, pois os guardas receberam ordens expressas para o protegerem e não o incomodarem. Da sua cela continuou a controlar a vida da sua localidade.

 

Reposta a velha ordem, o velho Gambus passou a ser o maior. Saiu da prisão às costas dos carcereiros, como um toureiro, aclamado pela populaça.

 

Dedicou um dia inteiro a distribuir gratificações ao pessoal da penitenciária e a oferecer dotes às filhas de outros prisioneiros. Fundou mesmo um centro para tuberculosos na capital do concelho e deu uma esmola generosa ao abade da paróquia.

 

Mesmo os presidentes de outras freguesias começaram a recorrer aos seus pertinentes conselhos. Passou de Miquel Gambus I, o Gavatxo (Francês), a Miquel Gambus, o Do Rei.

 

Instalado outra vez na sua cadeira do poder, a primeira coisa que fez foi mandar deter um incauto que teve a ousadia de o substituir como Presidente da Junta durante os dezoito meses que esteve encarcerado. Ordenou que o prendessem no meio da praça principal da vila.

 

O primeiro Gambus calçou então umas luvas brancas de tecido, de dedo a dedo, e cortou-lhe os testículos com uma tesoura de costura, para prolongamento do suplício. Depois atirou-os aos cães. Dizem que vendeu o atrevido como eunuco a um rei africano.

 

A este intrépido catalão, sucedeu-lhe o filho Miquel Gambus II, conhecido como o Merdas por ter a mania das grandezas. Tal como o pai, foi presidente vitalício de El Cagaire.

 

A localidade mudou muito graças a ele. Até de nome.

 

A denominação sempre fora El Cagaire porque o rio, encaixado na montanha, fazia uma curva de tal maneira apertada que, vista do ar, parecia o traseiro de uma pessoa a defecar. Tal como um caganer (cagão, figura de uma personagem a defecar, típica dos presépios da Catalunha).

 

O Merdas, não contente com o nome da sua terra, decidiu então agir. Com uma pequena falsificação de um texto medieval e um suborno a um deputado provincial, conseguiu que a  localidade conhecida durante mil anos como El Cagaire passasse a ser oficialmente denominada Alcagaire de la Roca.

 

Dizem que, em prol do desenvolvimento da sua vila, o Merdas saqueou, roubou e matou sempre que lhe apetecia, ou necessitava. Nunca nenhum tribunal conseguiu provar fosse o que fosse.

 

Em plena idade de oiro do caciquismo, a sua rede de interesses económicos e, sobretudo, políticos da família tinham-no tornado praticamente invulnerável. 

 

Apenas no fim da vida se meteu com quem não devia, a Igreja, subestimando o seu poder temporal. E por uma mera questão formal teve de ser enterrado como um pária.

 

Sucedeu-lhe a sua filha Miquela, que resolveu criar uma nova maneira de obter rendimentos para a família, de forma artística e inventiva: a falsificação de resultados eleitorais. Numa época em que as fraudes eleitorais abundavam, apenas Miquela era capaz de as fazer de forma sublime, como se fossem abençoadas por mão divina, tornando-as indemonstráveis. Perfeitas.

 

A filha do Merdas inventou e experimentou os métodos mais diversos e sofisticados, desde a construção de urnas de falsidade indetetável, à criação de centenas de pessoas inexistentes que só ganhavam vida para irem votar.

 

Por isso, pedia quantias astronómicas para garantir a vitória eleitoral e apalavrava acordos segundo os quais, caso não conseguisse a vitória, nada cobrava. Nunca falhou.

 

Dizem que a política tem horror ao vazio mas...

 

Mas fundamenta-se na simetria dos procedimentos.


publicado por João Madureira às 07:00
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