Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2020

476 - Pérolas e Diamantes: Rei-Presidente Sidónio Pais

 

 

Os líderes míticos portugueses são personagens de romance. Todos eles. É também esse o caso do Rei-Presidente Sidónio Pais.

 

Em abril de 1928 foi eleito Presidente da República por sufrágio universal, na altura unicamente masculino. Enormes massas de povo juntaram-se a Sidónio, aclamando-o como um salvador.

 

A verdade é que ascendeu à chefia do Estado de forma discreta a partir do exercício da sua função de professor universitário. De facto, Sidónio Pais, ao contrário daquilo que muita gente pensa, não era líder militar, nem chefe de partido. O que faz deste episódio um dos mais estranhos da história política portuguesa do século XX.

 

A verdade é que a sua vida tinha girado muito em volta do jogo a dinheiro, em que se viciou, e também dos namoros extraconjugais. Em 1906, escandalizou a sociedade ao abandonar a sua legítima esposa e os cinco filhos para ir viver com uma amante, que, por acaso, também era casada.

 

Foi só em 1910, com a implantação da República, que Sidónio Pais alcançou a sua oportuna iniciação maçónica. Começou a acumular cargos: vice-reitor da universidade, presidente da Comissão Administrativa Municipal de Coimbra, administrador da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, deputado à Assembleia Nacional Constituinte (1911), ministro do Fomento e das Finanças dos primeiros governos constitucionais (1911-1912) e finalmente embaixador na Alemanha (1912-1916).

 

O célebre escritor e político republicano João Chagas encontrou Sidónio em Paris, quando ele regressava a Portugal depois da declaração de guerra da Alemanha (março de 1916) e ficou mal impressionado pela sua magreza, pelo seu mau francês e pelos rumores sobre a sua movimentada vida sexual. Não teve dúvida em o considerar uma “personalidade insignificante”.

 

Dizem que foi o modo como era subestimado o que o ajudou na conjura em que acabou por se envolver em Lisboa, no verão do ano seguinte.

 

Os pormenores da conspiração de Sidónio Pais nunca foram claros.

 

Foi com o apoio de um amigo agricultor, António Miguel de Sousa Fernandes, que, seguindo a receita tradicional para sublevar a guarnição de Lisboa, contactou oficiais de baixa patente, sargentos e voluntários civis. A polícia, informada dos seus movimentos, não o prendeu porque nunca lhe deu importância.

 

No meio da bagunça que se instalou em Lisboa, nos primeiros dias de dezembro de 1917, mal se soube da rendição do governo de Afonso Costa, o povo assaltou e destruiu as casas e os escritórios dos ministros e de todas as sedes, centros escolares, cantinas e jornais do PRP,  na capital. Multidões bailaram e cantaram à volta das fogueiras onde ardia o recheio dos edifícios saqueados: “Tudo dança, tudo dança, \ Tudo dança, tudo gosta, \ Já caiu o Ministério \ Já morreu Afonso Costa.”

 

Foi então quando Sidónio se pôs ao comando das tropas revoltadas no Parque Eduardo VII, ao princípio nervoso, depois com determinação implacável, competência técnica e bom humor, sempre a fumar e a comer chocolates. A 11 de dezembro, de presidente da Junta Revolucionária passou a chefe do Governo.

 

Avisou que “iria vinte vezes ao parque Eduardo VII para combater a demagogia”. O povo começou a admirá-lo como um “teso”, um “valente”. A oligarquia política acreditou finalmente que ele falava a sério quando afirmou: “não sirvo para ser o guarda temporário do país”. De homem discreto passou a herói providencial.

 

Sidónio aumentou os prés, melhorou o rancho e multiplicou as paradas militares, onde o exército pode exibir um novo aprumo e o recente material de guerra.

 

Resolveu então romper com os partidos republicanos. “À revolução feita com os tiros dos canhões, teria de se seguir outra, mais difícil, com base numa reviravolta de espíritos”.

 

A 9 de maio de 1918, numa cidade em festa, em cima do cavalo e de espada desembainhada, assistiu a uma enorme parada da guarnição militar da capital, enquanto dois aviões sobrevoavam a cidade. Nos dias seguintes, o Presidente teve sucessivos banhos de multidão. A imprensa notou a “excitação do público feminino”.

 

A 14 de dezembro foi alvejado no peito com um tiro, em plena gare do Rossio. Há duas versões das suas últimas palavras. Para uns terá dito: “Não me apertem, rapazes”. Para outros, despediu-se com uma deixa mais teatral: “Morro bem, salvem a Pátria”.

 

Segundo Fernando Pessoa, o sidonismo salvaguardara o que de fundamental os republicanos tinham feito: a expulsão da dinastia e a negação de um papel político ao clero católico. E, sobretudo, tentara dar um passo fundamental na eliminação do tipo de políticos profissionais, bacharéis e caciques que governavam a república como já antes tinham governado a monarquia constitucional.


publicado por João Madureira às 07:00
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