Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020

477 - Pérolas e Diamantes: L’amore masculino

 

 

Uma semana antes do seu vigésimo sétimo aniversário, em abril de 1476, Leonardo da Vinci foi acusado de se envolver em sodomia com um prostituto. Aconteceu ao mesmo tempo que o seu pai teve finalmente um filho legítimo que se tornaria seu herdeiro.

 

A verdade é que Leonardo se sentia romântica e sexualmente atraído por homens e não revelava ter qualquer tipo de problema com isso.

 

O relacionamento que durou mais tempo foi com um jovem de ar angelical, mas com uma personalidade diabólica, conhecido pela alcunha de Salai (o pequeno demónio). Descreveram-no como “um jovem gracioso e belo, com um deslumbrante cabelo encaracolado com o qual Leonardo se deleitava”.

 

Walter Isaacson, na biografia que escreveu sobre o génio italiano, refere que nunca se soube da relação de Leonardo com uma mulher. O próprio chegou a fazer registos ocasionais sobre a sua aversão à simples ideia da cópula heterossexual. Num dos seus famosos cadernos escreveu: “O ato sexual do coito, e as partes do corpo nele empregues, são tão repugnantes que, não fora a beleza dos rostos, os adornos dos atuantes e o impulso mal contido, a natureza perderia a espécie humana.”

 

Convenhamos que a homossexualidade não era incomum no seio da comunidade artística de Florença, ou no círculo do mestre Verrocchio. O mesmíssimo mestre de Leonardo nunca casou, tal como Botticelli, que também foi acusado de sodomia.

 

Havia outros artistas conhecidos que eram homossexuais: Donatello, Miguel Ângelo e Benvenuto Cellini. Este último foi duas vezes declarado culpado de sodomia.

 

De facto, l’amore masculino (designação de Leonardo, segundo Lomazzo) era tão comum em Florença que na Alemanha a palavra Florenzer se transformou em calão para “homossexual”.

 

Na altura de Leonardo da Vinci, existia, entre alguns humanistas do Renascimento, um culto à volta de Platão, que incluía uma perspetiva idealizada do amor erótico por rapazes belos. Ou seja, o amor homossexual era celebrado tanto em poemas como em canções obscenas.

 

Apesar da licenciosidade dos costumes, a sodomia era considerada crime, como Leonardo veio penosamente a saber, pois foi várias vezes alvo de ações judiciais.

 

Entre 1432 e 1492, foram acusados de sodomia em Florença cerca de quatrocentos homens por ano. Destes, cerca de sessenta foram culpados e condenados à prisão, ao exílio, ou mesmo à morte.

 

Para a Igreja, os atos sexuais eram considerados pecado. Numa bula de 1484 equiparava a sodomia a “relações sexuais com o demónio”. E os padres não se cansavam de se insurgir contra ela.

 

Dante, o autor da “Divina Comédia”, ilustrada por Botticelli, que da Vinci venerava, relegou os sodomitas, misturando-os com os outros ímpios e usurários, ao sétimo círculo do inferno.

 

Esta atitude teve muito de hipócrita, pois Dante expôs os sentimentos contraditórios de Florença para com os homossexuais louvando, no seu poema eterno, um dos cidadãos que havia colocado naquele círculo, o seu próprio mentor Bruneto Latini.

 

Alguns estudiosos, seguindo Freud, defendem que em Leonardo os desejos  “homossexuais passivos eram sublimados”, reprimidos e canalizados para o seu trabalho. Basearam-se para isso em alguns dos seus escritos: “Quem não puser freio aos seus desejos libidinosos, coloca-se ao nível das bestas.”

 

Mas uma coisa é o que se diz e outra o que se faz. Não existe qualquer motivo para acreditar que Leonardo se tenha mantido celibatário.

 

Antes bem pelo contrário. A sua vida e os seus cadernos confirmam que não tinha vergonha dos seus desejos sexuais. Ao que tudo indica, gostava de divertir-se com eles. E daí não veio mal ao mundo.

 

Num dos seus cadernos, numa seção que intitulou “Do Pénis”, descreve com uma certa ironia, como o pénis tem uma mente própria, agindo de quando em vez, sem o desejo do homem: “Por vezes, o pénis demonstra um intelecto próprio. Um homem pode desejar que seja estimulado e ele continuar obstinado e seguir o seu próprio caminho, às vezes movendo-se sozinho sem a autorização do dono. Quer esteja acordado ou a dormir, faz o que quer. Muitas vezes, quando o homem o quer usar, ele tem o desejo contrário, e amiúde deseja ser usado e o homem não o permite. Parece, portanto, que essa criatura tem vida e uma inteligência separada do homem.”

 

A verdade é que os seus desenhos de homens nus tendem a ser obras de beleza afetuosa, muitos deles representados de corpo inteiro. Já os seus quadros com mulheres, por contraste, aparecem vestidas e exibidas da cintura para cima.

 

Apesar disso, e ao contrário de Miguel Ângelo, Leonardo revelava toda a sua mestria quando se dedicava a pintar mulheres. Mona Lisa e os seus retratos de mulheres são profundamente complacentes e psicologicamente introspetivos.


publicado por João Madureira às 07:00
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