Segunda-feira, 3 de Fevereiro de 2020

479 - Pérolas e Diamantes: A Luisinha

 

 

Logo de início, a guilhotina teve três nomes característicos: a Máquina, a Viúva, a Barbeadora. Logo após ter decapitado o rei Luís, passaram a chamar-lhe Luisinha. Só depois adquiriu o seu nome definitivo.

 

Dizem que Guillotin protestou, mas fê-lo em vão, alegando que aquela lâmina mortal, suspensa num espécie de portal alto sem porta, emoldurando o vazio, que semeava o terror e atraía multidões, não era obra sua. Ninguém prestou atenção a este médico inimigo declarado da pena capital.

 

Apesar de tudo aquilo que argumentou, as pessoas continuaram a acreditar que ele era o pai dessa peça de aço afiado que se tornou na atração mais popular das praças de Paris.

 

E as pessoas, a maior parte delas, continuam a acreditar que Guillotin morreu guilhotinado. É mentira, pois o médico exalou o seu último suspiro deitado na sua cama, com a cabeça colada ao corpo. Este artefacto mortal, com comando elétrico na sua versão ultramoderna, continuou a cortar cabeças até 1977. A sua última vítima foi um emigrante árabe executado no pátio de uma prisão de Paris.

 

Durante a Revolução Francesa, eram os proprietários de terras que incendiavam as próprias colheitas para a sabotar. A fome começou a rondar as cidades. Os reinos circundantes ergueram-se em pé de guerra, tentando combater o seu contágio, pois ela desrespeitava as tradições e ameaçava, como refere Eduardo Galeano, “a santíssima trindade da coroa, da peruca e da sotaina”.

 

Dentro de portas, e acossada de ambos os lados, a revolução fervilhava. O povo seguia circunspecto o que se fazia em seu nome. Poucos assistiam aos debates. O tempo urgia. Era preciso tomar lugar nas filas para conseguir o que comer. As divergências levavam ao cadafalso. Cada fação era dona da verdade absoluta. Exigiam para si o poder absoluto. Os discordantes eram apelidados de contrarrevolucionários, aliados do inimigo, espiões estrangeiros e traidores da causa.

 

Os girondinos, representantes da alta burguesia, acossados pela revolução, defendiam posições moderadas. Já os jacobinos, representantes da pequena e média burguesia, constituíam o partido mais radical, liderado por Robespierre.

 

Instalou-se então a ditadura jacobina.

 

Foi nessa altura que se começaram a guilhotinar pessoas que eram contra a revolução. As execuções tornaram-se espetáculos populares, pois aconteciam diversas vezes ao dia, em atos públicos. Depois do rei, chegou a vez da sua mulher, Maria Antonieta, perder literalmente a cabeça.

 

Marat não morreu na guilhotina porque uma louca o apunhalou quando tomava banho.

 

Saint-Just acusou Danton, dizem que inspirado por Robespierre.

 

Danton foi condenado à morte. Pediu então que não se esquecessem de exibir a sua cabeça perante a curiosidade pública e deixou os seus tomates de herança a Robespierre, afirmando que ele iria precisar deles.

 

Passados apenas noventa dias, Robespierre e Saint-Just foram decapitados.

 

Dessa forma desesperada e caótica, a república trabalhava, sem se aperceber, para a restauração da ordem monárquica. A revolução que anunciou a liberdade, a fraternidade e a igualdade, acabou por abrir o caminho ao despotismo de Napoleão Bonaparte, que, contrariando a ideia inicial, acabou por fundar a sua própria dinastia.

 

O hino mais famoso do mundo nasceu de um momento famoso da história universal. O seu autor, Rouget de Lisle, compô-lo numa só noite. Decorria o ano de 1792, com as tropas prussianas a avançarem contra a Revolução Francesa. Em defesa da revolução acossada, o exército do Reno partiu para a frente. O hino de Rouget insuflou coragem às tropas. Não se sabe bem porquê, deu a volta à França, acabando por aparecer na outra ponta do país. Os voluntários de Marselha marcharam para o combate entoando essa canção motivadora, que passou a ser conhecida como “A Marselha”. Toda a França fez coro. Ao seu som, o povo invadiu o Palácio das Tulheiras.

 

Rouget de Lisle foi preso por ser suspeito de traição à pátria, ao ter discordado da guilhotina. Quando saiu da cadeia, vinha sem farda e sem salário.

 

Passou a deambular pelas ruas, corrido pela polícia e comido pelas pulgas. Quando afirmava ser ele o pai do hino revolucionário, riam-se na sua cara. 


publicado por João Madureira às 07:00
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