Segunda-feira, 10 de Fevereiro de 2020

480 - Pérolas e Diamantes: Capitalismo, aparelhos e clientelas

 

 

Os comunistas numa coisa têm razão: o problema é sempre o capitalismo. O dito capitalismo produz muita riqueza mas distribui-a mal. Um filósofo avisado disse algo como isto: quando o capitalismo vai bem, metade do Planeta tem fome; quando o capitalismo vai mal, o Planeta inteiro tem fome. Quer isto dizer que o capitalismo é um paradoxo.

 

Do ponto de vista económico, não existe alternativa ao capitalismo. A solução reside na capacidade de o manobrarmos de forma a torná-lo mais humano.

 

Por muito que lhe custe, a esquerda tem de saber criar modelos económicos que giram riqueza e só depois reparti-la. Ou seja, tem de aprender a criá-la.

 

É claro que a esquerda tem razão quando fala em justiça social. O problema é que a economia não funciona melhor existindo planeamento central.

 

Todo o planeamento centralizado contraria o que entendemos como natureza humana, pois limita a inovação, estimula a preguiça e conduz à subserviência.

 

Basta olhar para a Venezuela para entendermos onde nos leva uma economia estatal que pretende mandar em tudo.

 

Sem tentar ser demagógico, é bom lembrarmo-nos que Keynes, ao mesmo tempo que defendeu políticas que estimularam a criação de empregos e o combate à pobreza, considerou que “existem justificações sociais e psicológicas para significativas diferenças de rendimentos e riqueza”.

 

A sua defesa da intervenção do Estado na economia foi no sentido de salvar o capitalismo e não de o superar. Convém não esquecer que era um liberal.

 

O planeamento falha na maioria das vezes porque é impossível saber quando uma crise vai acontecer. Além disso, a inovação inclui sempre risco, probabilidades acrescidas de falhanços, concorrência. E também falências.

 

O socialismo real, construído a Leste, difundindo a ilusão de mais segurança e igualdade, apenas limitou a liberdade e construiu um futuro de pobreza.

 

É raro o português que se diz entusiasmado e convicto no dia das eleições. O sentimento é que escolhemos entre um mal maior e um mal menor.

 

Claro que a realidade também tem o seu peso: somos um país pequeno e com uma economia muito aberta, produzimos aos ziguezagues e qualquer aumento do consumo interno aumenta o défice e a dívida.

 

Os números positivos da nossa economia são ainda anémicos, o que equivale a dizer que é necessária muita prudência. A concorrência com o exterior é muito desigual.

 

É frequente a obsessão pela igualdade criar mais desigualdade. Não podemos limitar a ambição e a criatividade. O controlo excessivo é uma fixação leninista que conduz à mediocridade. O Estado move-se sempre devagar. E quanto maior é mais devagar se movimenta.

 

A vida democrática implica riscos e responsabilidades.

 

No entanto, todos verificamos que neste país tudo está feito para ser administrado e gerido pelos amigos, companheiros ou camaradas.

 

A lógica é simples: os partidos são geridos pelos seus aparelhos e o Estado é gerido pelos partidos. Os que dominam dividem entre si as prebendas.

 

O tal “regime de substituição” a que os governos recorrem servem para fazer nomeações permanentes e colocar nos devidos lugares os “boys” e “girls” a um ritmo frenético.

 

Os nossos partidos são partidos de Estado, muito deles criados quando a nossa democracia nasceu, em abril de 1974. Ou seja, o Estado criou com urgência alguns partidos ditos democráticos. Por isso continuam a viver encostados a ele. É a sua carga genética.

 

Atualmente, as carreiras partidárias fazem-se em lugares do Estado, os lugares ditos políticos, que incluem as assessorias e os contratos de fornecimento de serviços ao Estado. Alguma da legislação apenas é feita com o intuito de justificar a sua existência. Depois “os sábios” do regime são contratados pelos órgãos de informação para iludir os pacóvios, justificando “os senadores”. Alguns conseguem até alcançar o mais alto cargo da nação bajulando o poder e os poderosos.

 

O problema é que os lugares para distribuir já não chegam, por isso os partidos, todos eles sem exceção, precisam de criar mais. Pegaram agora na boa ideia da descentralização e começaram a vendê-la ao público.

 

O Estado tem de crescer para tranquilizar a sofreguidão dos partidos.

 

Quando os lugares estiverem preenchidos, logo virá a regionalização, outra boa ideia que a sofreguidão da clientela partidária tratará de destruir.

 

Não podemos esquecer que foram os banqueiros, os grandes escritórios de advogados, as lideranças partidárias, os ministros, ex-ministros e empresários espertalhuços os que nos levaram à bancarrota.

 

O PS está de barriga cheia e o PSD, coitado, apenas deseja umas sobras na mesa do Orçamento.

 

Só não sabemos onde isto nos irá levar.


publicado por João Madureira às 07:00
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