Segunda-feira, 9 de Março de 2020

482 - Pérolas e Diamantes: Dupond e Dupont

 

 

O economista francês Thomas Piketty, no seu novo livro “Capital et Ideologie”, afirma que a ideologia é o motor do capitalismo e que a esquerda social-democrata na Europa e nos EUA se transformou numa espécie de casta beneficiando da globalização e da revolução do conhecimento.

 

A sua tese é que a social-democracia necessita de ser refundida. Piketty batizou esta nova corrente política de “socialismo participativo e internacionalista”, mas faz questão de esclarecer que retira do termo “socialista” qualquer tipo de carga marxista ou totalitária.

 

Esta refundação, proposta por Piketty, tem a ver com o aburguesamento da social-democracia, porque hoje mais não é do que a emanação de uma nova elite, que denomina de “elite brâmane” para lhe atribuir o colorido da casta alta hindu.

 

Na sua opinião, o capitalismo atual do Ocidente está dominado por “duas elites”: a social-democrata à esquerda (que corresponde em Portugal ao PS) e a “mercantil e financeira” à direita (entre nós representada pelo PSD/CDS).

 

Ambas ganharam mais do que todas as outras camadas sociais com a denominada “mundialização hipercapitalista e digital a partir dos anos 90”.

 

Segundo o professor do ISEG, Alexandre Abreu, “a corrente dos partidos social-democratas foi cooptada pelo neoliberalismo, o que é essencial para a compreensão de duas coisas: o sucesso do próprio neoliberalismo e o colapso da social-democracia”.

 

E tudo isto aconteceu porque a história recente da Europa varreu a famigerada “terceira via” do denominado trabalhista Tony Blair ou o neue mite (novo centro) do SPD alemão, de Gerhard Schröeder. E fez colapsar o PASOK na Grécia e o Partido Socialista Francês.

 

Foi o distanciamento político por parte dessas elites partidárias em relação às massas populares e as dinâmicas inerentes à globalização e à revolução do conhecimento que provocaram um autêntico exército de vítimas nas economias mais desenvolvidas.

 

O economista francês dedica muitas páginas do seu livro à análise sociológica da “anatomia de um divórcio entre a esquerda eleitoral e as classes populares”.

 

Piketty refere que a razão de isto tudo ter acontecido se deve ao facto das classes médias terem sido vítimas da “tromba de elefante”. Ou seja, os 40 % do meio viram os seus rendimentos serem reduzidos desde os anos 80, enquanto os 50% de baixo captaram 12% do crescimento do rendimento real por adulto e o 1% do topo captou a fatia de leão de 27%. Segundo este estudo, os do meio deverão continuar a perder até 2050 cerca de dois pontos percentuais, enquanto o 1% do topo irá arrecadar seis pontos percentuais. 

 

Um dos casos mais gritantes fora das economias desenvolvidas é o Brasil, que, por muito que isso custe a certa esquerda autista e folclórica, revela o erro de palmatória do PT de Lula e Dilma Roussef. A questão não radica no facto dos tais 50% de baixo terem beneficiado com as presidências do Partido dos Trabalhadores. O problema é que isso fez-se inteiramente à custa das classes médias. O PT, ao contrário do que apregoa, não fez uma verdadeira reforma fiscal que mexesse com o poder económico dos 10% de cima, que detêm mais de 55% do rendimento, muito acima dos EUA, da Rússia ou mesmo da Índia.

 

É a anomalia produzida pela tal tromba do paquiderme que está a alimentar o populismo. Piketty considera que o termo mistura tudo “numa sopa indigesta” que se deve evitar a todo o custo. Ele prefere falar de social-nativismo, relativamente ao nacionalismo com demagogia social, e de nativismo bilionário, ao estilo de Trump.

 

Relativamente às políticas públicas, o economista francês defende um verdadeiro choque fiscal sobre as fortunas, nomeadamente para financiar novas medidas e ampliação do estado social, com destaque para o ensino e também a criação de uma espécie de herança de 120 mil euros dada pelo fisco a todos os cidadãos quando fizerem 25 anos.

 

A maior preocupação do Thomas Piketty, e que o levou a escrever o livro, é a de tentar perceber o porquê da longevidade da desigualdade nas sociedades capitalistas modernas.

 

Descobriu que “o capital, desde que constituído, reproduz-se mais depressa do que o crescimento da produção”.

 

A solução, para Piketty, não é a promoção da lutas de classes para atingir o domínio dos meios de produção, mas uma revolução fiscal.

 

A sua conclusão é que a desigualdade “não é económica ou tecnológica, é ideológica e política”.


publicado por João Madureira às 07:00
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