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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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04
Mai20

489 - Pérolas e Diamantes: O pior é o resto

João Madureira

 

 

Uma questão bem colocada por vezes acaba por esclarecer um assunto. Cada um aprova aquilo que quer. Tudo é uma questão de opinião. A dúvida está em toda a parte.

 

Até o maior bandido pode ser um bom filho, marido amante, pai extremoso e amigo do seu amigo. O pior é o resto.

 

Eu gostava muito de Moral. Era até bom nisso. Gostava de leituras proveitosas. O padre Zé bem que teimava nos raciocínios simples, na exortação do bem e do bom caminho. E nos aconselhamentos justos. E eu bem que queria acreditar. Mas esse dom foi-se. Ou talvez nunca tenha chegado. O bom do senhor Cipreste até insistia com os meus pais para que eu fosse cursar Latim de Seminário. Mas os meus sofismas eram outros.

 

Uma coisa são as ideias e as pessoas. Outra bem distinta é lidar com elas.

 

Quando se quer o bem à força, acaba-se por impor o mal. Também tentei a política, mas tardei  em encontrar o espírito de raposo. Na política quem manda é a astúcia.

 

Os das minorias pequenas, que são sempre os menos bons, podem até começar como sargentos mas acabam como soldados rasos. Já os das maiorias maiores podem até assentar praça sem divisa nenhuma ao ombro que acabam em sargentos. Ou, quando não, em tenentes ou capitães. Se tiverem feito a recruta nos escuteiros, claro está.

 

Como bem diz Riobaldo: O ruim com o ruim. E o bobo com o bobo.

 

Deus, seja ele católico, muçulmano ou ateu, é paciência. O contrário é... o diabo.

 

Parece que o êxito deriva de não se ter remorso daquilo que se desfaz, mesmo dizendo o contrário. Não se ganha o Céu pedindo para o partido e amealhando metade na conta pessoal.

 

Mas a regra é mesmo trabalhar no duro e querer depois paz e sossego.

 

Nós queremos viver como irmãos. Mas irmãos dos bons. Dizem que devemos ser alegres. Pois seja. Mas a mim, a alegria de agora parece-me triste. Enquanto a antiga, a sinto de maneira alegre. Envelhecer tem destas coisas.

 

A saudade faz sofrer. Até a carne mais saborosa acaba por enjoar. Se se comer muita, claro está.

 

A saudade é outra maneira de envelhecer.

 

E os grilinhos lá na sua toca: gri-gri-gri. Por vezes o vento grita tanto que nem os pássaros se atrevem a voar.

 

Aprendi que quando se está a pensar vender a alma ela já está vendida, mesmo sem se saber.

 

Bem me avisou o meu pai: Somos donos do nosso silêncio mas escravos das nossas palavras.

 

O bom e justo conselho é bom de ouvir. Mas devemos desconfiar dos que tudo louvam em cantorias.

 

O problema é quando a vida começa a pesar. Por mais que digam o contrário, a coragem é sempre variável. Os burros são bons para carregar e os cavalos para passear. Os ricos conseguem desdobrar os dias. Os outros lutam para que eles não encolham. 

 

Aos que são iguais tudo lhes sai igualmente. O excesso de ideias também provoca problemas. E invejas. E outras coisas ruins.

 

Há caminhos que emitem sons. Outros são cegos, surdos e mudos.

 

Ai amigos, companheiros e camaradas, como tudo isto é difícil. Um lugarzinho ao sol custa muito acenar de cabeça, muito engolir em seco e muito segredo enfiado em apartado estrangeiro.

 

Um amigo meu disse-me que a corrupção é como a bondade, não tem limites.

 

Isto até parece uma nação: uns tocam, outros carregam e os altruístas minoritários cantam, comem, dançam e mandam.

 

Nas suas rezas políticas cantadas à capela é num de repente que se passa da privação à abundância.

 

Há sonhos dos quais acordamos devagar.

 

E os grilinhos lá na toca deles: gri-gri-gri.

 

E os ilustres estadistas gambozinos a gostar do verdadeiro no falso. Da amizade prospetiva. E de procurar a felicidade na infelicidade.

 

Como cantam os Galandum Galundaina: “Nós deiqui i bós daí / Sodes tantos cumo nós / Mataremos un carneiro/ Ls cuornos são para bós. // Lá lá lá ra lá / Lá lá lá ra laia / Lá lá lá ra lá / Lá lá lá ra laia...”

 

Os nossos sonhos só nos afadigaram. O que é preciso é ter sorte. 

 

E os grilinhos lá na sua toca embelezada: gri-gri-gri.

 

Parece que a virtude está em comer calado.

 

E os tais da gaita e da sanfona mirandesas: “Nós deiqui i bós daí / Sodes tantos cumo nós / Mataremos un carneiro/ Ls cuornos são para bós. // Lá lá lá ra lá / Lá lá lá ra laia / Lá lá lá ra lá / Lá lá lá ra laia...”

 

E os grilinhos repenicados na sua cadeirinha de encosto lá na sua toca partidária: gri-gri-gri.

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