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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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22
Fev21

529 - Pérolas e Diamantes: A incomodidade da sabedoria

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

Diziam os persas que a essência da arte da política é saber quando não se deve fazer nada.

 

Afirmam que as sociedades ocidentais, para nosso orgulho e bem-estar, são democracias. Mas, quando se olha bem para elas, são muito mais parecidas com as velhas oligarquias do que com democracias genuínas.

 

Nos templos modernos, tal como nos antigos, as sacerdotisas continuam a dançar com os eunucos. Mas desenganem-se, nem sempre é fácil dizer quais são as sacerdotisas e quais são os eunucos, pois todos estão vestidos de mulher. Na verdade, os eunucos conseguem até vestir-se melhor do que as sacerdotisas.

 

Só que naquela altura a coisa fiava mais fino. Em Sardis, e na mesmíssima Babilónia, no dia da deusa Cibele, os jovens que desejavam servi-la, cortavam os genitais e corriam pelas ruas com as partes arrancadas na mão. No final da corrida, já exaustos, os eunucos voluntários lançavam os seus genitais cortados para dentro da porta aberta de uma casa, cujo dono era então obrigado a recolher a criatura e a tratá-la até ela recuperar completamente.

 

Relatos desta loucura asseguram que os jovens tinham aspeto de loucos, provavelmente porque primeiro bebiam haoma ou outra substância alucinogénia, como o mel da Cólquida, que produzia alucinações.

 

As nossas antigas gentes possuíam uma indolência inata, mas quando as picavam eram muito dadas a ataques de violência, especialmente a gente do campo, quando abusava da pinga.

 

Os mais sábios Reis tinham como seus assistentes surdos-mudos, para poderem falar à vontade quando recebiam gente importante. E nunca substituíam nada nem ninguém de que gostassem.

 

Como todos os outros, eram incapazes de desfazer feitiços que desconheciam. Mas para continuar em frente é necessário instruir tanto os nossos como os outros magos. Quem tem a capacidade de ouvir os oráculos é sempre capaz de influenciar o líder contra o verdadeiro inimigo. Mesmo contra os que se fazem de amigos imprescindíveis.

 

E sempre necessário exorcizarmos os demónios. Não é tarefa fácil importunar o Senhor da Sabedoria.

 

Os chefes impacientes preferem as declarações inequívocas dos deuses às perguntas dos profetas.

 

Gostar ou não gostar das profecias não tira nem põe. Há sempre outras de que gostamos ainda menos.

 

Já os secretários são especialistas em deslizarem rápidos como serpentes, quando o líder concede uma audiência particular que não passou pelo protocolo.

 

Aos que conspiram – e eles são sempre muitos – deixo-lhes aqui um conselho de graça: a  preocupação não deve assentar na descoberta da conspiração dos outros, mas antes na forma como podereis esconder melhor a vossa.

 

As conspirações tornam os homens azedos e desconfiados. E o poder cega.

 

Causa certa estranheza estarmos presos à nossa própria liberdade.

 

A coragem dos portugueses está sempre a escapulir-se pelas nesgas do medo ancestral.

 

Claro que há sempre a possibilidade de recorrermos à bruxaria, mas ela só dá resultados para os nativos. O efeito de ver através dos corpos opacos, como o fazia Blimunda, apenas resulta em Portugal. Fora de portas, o poder evapora-se.

 

A nossa inteligência fica em suspensão sempre que nos pomos a ruminar nas tragédias pátrias ou estamos à beira de tomarmos decisões. O adormecimento nacional tem séculos.

 

Apesar da fanfarronice, os portugueses têm medo dos chefes.

 

Apesar de séculos de lutas e ódios, de amores e desgraças e das lições que aprendem no presente sobre o passado, os portugueses cometem sempre os mesmos erros e praticam alegremente as mesmas virtudes.

 

Passam a vida entre intrigas e amuos.

 

Nós sempre sofremos em bruto, como as pedras arrancadas à pedreira, amarrados às tradições que passaram de geração em geração, sempre com medo da modernidade.

 

A nossa modernidade é apenas de faz-de-conta.

 

O que mais apreciamos nas festas é o fogo de artifício. Somos doudos por fogo, por ver o seu estrelejar e escutar o seu ribombar ensurdecedor.

 

Para a grande maioria dos portugueses, a realidade não tem sonhos, apenas dividendos.

 

A verdade é que é incómodo saber-se demasiado.

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