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TerçOLHO

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25
Out21

563 - Pérolas e Diamantes: Do mal o menos

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 6.jpg

 

 

Li isto de José Marti, o cubano mais cubano dos cubanos: “Éramos uma máscara, com calções de Inglaterra, o colete parisiense, o sobretudo da América do Norte e o barrete de Espanha.”

 

Afinal o que é que mudou? Apesar de português de Portugal, não vá algum adepto de André Ventura duvidar na minha ancestralidade, sinto que pouco ou nada se alterou em relação aos poderes mundiais. O mundo dos ricos continua a ser uma espécie de detergente com glutões.

 

Teddy Roosevelt, presidente do EUA até 1909, data em que deixou de invadir países e foi caçar rinocerontes para África, disse: “Nenhum triunfo da paz é tão grandioso como o triunfo supremo da guerra.” Por dito tão profundo foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz.

 

Para dar razão ao seu predecessor, William Taft, invocou a ordem natural das coisas e afirmou: “Todo o hemisfério será nosso de facto, como já é nosso moralmente, em virtude da nossa superioridade racial.”

 

Depois da caça ao preto em África, da caça ao índio na América, e entusiasmado por tão pertinente aforismo de um presidente dos EUA, Hitler entusiasmou-se e decidiu, também ele, iniciar a caça ao judeu.

 

Dizem que para participarem nas guerras, os presidentes dos EUA invocam a inspiração do Céu. O presidente William Mackinley, há mais de um século, confirmou o contacto divino e resolveu partilhar a mensagem: “Deus disse-me que não podemos deixar os Filipinos entregues a si próprios, porque não têm capacidade para se governarem, e que nada podemos fazer exceto encarregarmo-nos deles e educá-los e elevá-los e civilizá-los e cristianizá-los.”

 

E o bom exemplo pegou, a seguir foram libertadas e salvas Cuba, Porto Rico, Honduras, Colômbia, Panamá, República Dominicana, Havai, Guam e Samoa.

 

Em delírio evangélico, o escritor Ambrose Bierce, assegurou aos incautos: “A guerra é o caminho que Deus escolheu para nos ensinar geografia.”

 

O poeta indiano Rudyard Kipling, nascido em Bombaim, mas fabricado em Londres, afirmava que os servos eram tão ignorantes que chegavam a ignorar aquilo de que necessitavam. E também eram tão ingratos que eram incapazes de valorizar os sacrifícios que os seus senhores faziam por eles.

 

Claro que a cristandade nada era sem o contributo insubstituível das senhoras da caridade. Por exemplo, a redenção das Filipinas contou, desde o início, com as mulheres dos altos funcionários e dos chefes militares das forças invasoras. Nas suas visitas à prisão de Manila, acabaram por se aperceber de que os presos estavam muito magros. Quando entraram na cozinha e se depararam com a comida daqueles desgraçados, caiu-lhes a alma aos pés. Era arroz selvagem, opaco e escuro. As autoridades, a rogo das condoídas senhoras, resolveram mandar vir dos EUA um carregamento de arroz civilizado, de cor branca, polido e embranquecido com talco. Nos primeiros dez meses, uma epidemia contagiou 4825 presos, matando 216. Os médicos americanos atribuíram a mortandade a algum micróbio originado pela falta de higiene que os países atrasados costumam gerar. Mas, por via das dúvidas, ordenaram que as cadeias voltassem à dieta do arroz selvagem. Como que por milagre, a epidemia acabou.

 

Nos finais do século XIX, a monarquia no Brasil morreu. Logo nessa manhã, os políticos monárquicos, por intervenção dos deuses do candomblé, acordaram republicanos. Passados poucos anos, foi promulgada a Constituição que implantou o voto universal. Todos podiam votar, menos os analfabetos e as mulheres. Como a grande maioria dos brasileiros ou era analfabeta ou do sexo feminino, quase ninguém votou. Apenas dois por cento dos habitantes do Brasil respondeu ao apelo das urnas. Do ato, resultou eleito presidente da nação um poderoso fazendeiro de café, chamado Prudente de Moraes. Deslocou-se então de São Paulo para o Rio no maior anonimato. Ninguém foi recebê-lo. Ninguém o reconheceu. Goza agora de alguma fama, pelo facto de o seu nome ter sido atribuído a uma elegante rua na praia de Ipanema.

 

Mas estas coisas já vêm de longe. Aristóteles disse: “A fêmea é como um macho disforme. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.”

 

Do mal o menos.

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