Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

28
Mar22

583 - Pérolas e Diamantes: Mais cinco de uma...

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 4.jpg 

Alegre, ou nem por isso, aqui estou, por vezes confinado, outras vezes nem por isso, acompanho-me sorridente sempre no princípio do fim. Ou ainda nem por isso. Eu sou do tempo em que as pessoas se riam, já não nos momentos dos enforcamentos, ou das decapitações, mas quando os anões eram disparados de um canhão, nos circos. Agora a morte decorre em vida, quando nos começamos a sentir como um eletrodoméstico avariado, um empecilho, algo que estorva e é necessário arredar do caminho. Há pessoas que estão condenadas a ir para onde as mandam. Todos tentamos ser úteis, pois necessário não é ninguém. Depois de se ser alguém é difícil voltar a ser um ilustre desconhecido. É difícil resistir ao abulismo das massas mundiais. A maioria apenas está interessada em que tudo esteja no sítio a cada manhã e a cada entardecer. Não sentem excitação, nem falta dela. A acumulação de mediocridade produz um efeito anestesiante. É uma espécie de droga leve. A sua reincidência é que devia ser desnecessária. Mas não é. A capacidade da mediocridade é ilimitada. E não causa angústia. Nem problemas de consciência. O mundo divide-se entre amigos e inimigos. E as desgraças dos inimigos não têm importância, são sempre relativas. O mundo já não é o que era. Ninguém se leva a sério. O problema é que andamos um pouco desorientados, não existe uma sensação plausível de ameaça. Não existe um verdadeiro adversário. O mundo aborrece-se de tudo. Até da paz. Mas há sempre quem nos queira mal. O problema já não é não haver Este e Oeste, mas não existir Norte e Sul. Em vez de autoritarismo, agora temos o ceticismo. Para castigo, é modesto. Mas não é desdenhável. Temos de nos agarrar a qualquer coisa. Mas já andam por aí os de sempre a meter medo, a praticar as más ações e a reativar as piores ideias. Dizem que não vale a pena discutir porque não se consegue convencer ninguém. Acontece que, a maioria das vezes, se discute porque não conseguimos compreender o que o nosso interlocutor pretende demonstrar. Todos receamos ser postos em dúvida. Longe de mim negar o óbvio aos óbvios. Negar a sede de poder é negar a natureza humana e a necessidade da política. Há cumprimentos que têm o condão de nos desagradar. As palavras vulgares indignam os bons sentimentos. Por vezes, sinto-me dominado por um excesso de timidez. A amabilidade de alguns sabe-me a fel. Raios partam este meu mau feitio. Nada substitui a mitologia dos sentimentos conservadores. Nem a perfeita bondade das almas caridosas. Nem os efeitos melífluos da correta amenidade. Escuto com a mais adequada das bondades o discurso judaico-cristão da amenidade. Se todos estão contentes, eu também os quero acompanhar. E admiro a doçura. E a delicadeza. E a amabilidade. E a alegria. E a discrição. E tento evitar falar. E dali me vou, bocejando, até aos territórios da solidão e da impaciência. Até  a estupidez está cheia de sentimento. Quem serve bons amos está sempre contente com eles. E eles com os seus excelentes servidores. Depois deixamos errar o olhar pela cruz, pelas estrelas e pelas fantasias da memória. As lágrimas de piedade sempre me comoveram até… às lágrimas. Por vezes a dignidade quadra mal com a situação em que somos colocados. Daí os sorrisos contidos, irónicos ou mesmo maldosos. Toleramos mal as mudanças impostas. É aí onde entram os políticos que mais não são do que contadores de mentiras a tentarem convencer os eleitores de que estão a dizer a verdade. Por isso criam convenções e iluminam processos e criam uma espécie de realidade paralela. Uma coisa é uma visão da realidade, outra, bem distinta, é a mentira. A vida é feita de diferentes desenvolvimentos, de recuos, recomeços, ecos e repetições. De ímpetos. Os fluxos contínuos resultam apenas das hipnoses. Depois somos empurrados pela memória, pelas circunstâncias. E nós sempre à espera de Godot, tentando cinzelar o destino. Mas ninguém escapa ao seu passado. Também eu gosto de tangos e de boleros e de passodobles, mas não sei dançar. Agora até se dança o fado e sem se sair do lugar. O mundo é um susto. Matamos um passado sem criar um presente. A verdade é que já devíamos estar para além da saudade. Ficamo-nos pela intensificação da mediocridade. Realidade analógica ou digital, vai tudo dar ao mesmo. E venham mais cinco de uma assentada que eu pago já.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

blog-logo

Arquivo

    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2006
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2005
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

A Li(n)gar