A pessoalíssima possibilidade do amor
Todas as coisas inspiradoras são superlativas. O exercício diário do amor escoa-se na fluência dos movimentos. O desejo esgota-se preenchido pelo frio silêncio da permanência. Toda a deslocação é uma admirável tristeza. São igualmente frias as canções despovoadas de sangue. São delicados os teus dedos simbólicos. Há uma ardente agudeza na maturidade completa da perseverança. As crianças esmigalham-se nos gritos leves da infância. São claras as mães iluminadas pelas giestas enevoadas. Penso um pouco na beleza das lágrimas ocultas e o meu sexo vibra no lírico fervor da fertilidade. Comovidos pelos livros, os homens puros adormecem sonhando com a incandescência da vida. A melancolia morre num lugar de primaveras cercadas por flores. Este é o nosso tempo. O tempo erguido pela torrente silenciosa das imagens. As margens da fantasia circulam acesas pelas horas consistentes. A originalidade das palavras reside na sua posição, como se fossem Evas nuas disponíveis a copular com a serpente. Toda a loucura é vingativa. Toda a juventude é confusa. Toda a paisagem é lembrança. Toda a mulher é um lugar incendiado. Agora a primavera ressuscita as palavras irremediáveis. Falas tão devagar que não te distingo no hermetismo dos hortos da acrópole. Dói-me a inquietação subterrânea da inspiração. As palavras na tua boca acendem-se como lâmpadas fosforescentes. A escrita é uma tarefa inquieta. Sou o teu lado oculto. A minha boca está agora perturbada de feminino. Marulham as águas no meu cérebro. As imagens aprendem a profunda necessidade dos lugares. Deito-me na experiência do arrependimento, refresco-me no exemplo bíblico do ciclista, mergulho no ruído instantâneo da ressurreição. Procuro a inocência respirando a monotonia das estrelas. És a pessoalíssima possibilidade do amor.

