590 - Pérolas e Diamantes: Contágios
Aí está o brilho do demónio e as chispas de beleza que entram pelo bairro sem nos darmos conta. A tempestade é inevitável. Os homens afogam-se em vinho. Quero ter a liberdade de não participar. A verdade da dúvida. As obrigações matam-me. Tudo o que é natural desaparece nas convenções. Agora leio as placas colocadas pelo município para tentar entender a cidade e cada vez a percebo menos. Dá-me raiva aparecer como ignorante diante desta gente erudita. Mas a verdade é que o desequilíbrio é irresolúvel. Esta gente possui outro domínio das línguas, das dicções e dos sotaques. Nem parecem de cá. Por vezes, também não parecem de lá. Apesar das linhagens e linguagens diferentes, somos todos patriotas. Mas… bem, agora deu-me para me armar em pedante. É da velhice, caros amigos. É da velhice. A verdade é que não sou bem português. Sou sobretudo transmontano, com ascendência galega. É isso que julgo ser. Esquecemo-nos muito mais do mal que causamos do que daquele que nos é aplicado. Não saímos das armadilhas que impomos sem mácula. Quando se sente frio é quando se está melhor ao sol. Agora anda toda a gente armada em gastrónoma. E não existe nada de mais entediante do que falar de comida. Ou de política. Todo o bom político é um mestre pasteleiro. Estamos todos um pouco fartos de ouvir paleio avulso sobre tretas alimentares, ou políticas, ou sobre qualquer outra amena e deslumbrante imbecilidade. Agora armamo-nos todos em mundanos simpáticos, sem nos esquecermos do tal sorriso prévio. Mas o passado é um intruso do qual dificilmente nos mantemos à distância. E isso tanto é válido para nós como para os outros. Eu, como muitos outros, fui educado à antiga. E, como todos sabemos, ficam sempre em nós os vícios da educação original: as dúvidas, as reservas, as objeções e os remorsos antecipados. E também um forte sentido de lealdade. E convicções verdadeiras. Ensinaram-nos que é necessário saber de tudo um pouco, o máximo possível, no nosso trabalho. Que é preciso estudar História pois é aí que estão os ensinamentos, as instruções e os modelos de comportamento. Afinal, por muito que nos custe, nós apenas nos deparamos com as variantes do que já aconteceu. A crueldade é contagiosa. O ódio é contagioso. A fé é contagiosa. O fanatismo é contagioso. A mentira é contagiosa. A loucura é contagiosa. É contagiosa também a estupidez. A responsabilidade é sempre alheia, por isso é que a irresponsabilidade se espalha por aí como erva daninha. À estupidez, a razão não lhe faz mossa. Mas até Cervantes participou na batalha de Lepanto e ficou com uma mão inutilizada. Intitulava-se “o maneta são”. Dizem-me que as ostras são frescas. O problema é que eu não gosto de ostras. Dizem que sabem bem com umas gotas de limão e que não é necessário trincá-las. O problema é que eu não gosto de ostras. Com limão, sem limão, trincadas ou engolidas. Não gosto de ostras. Nem de beija-mãos. Criticar é mais fácil do que compreender, mas, como já disse, eu não gosto de ostras. Duvidei e ainda duvido de tudo, ou de quase tudo. Claro que não duvido das ostras nem da sua frescura, quando estão frescas, claro está, pois de outro modo não se podem comer. O problema é que não gosto de ostras, ao contrário destas novas gerações aceleradas, pragmáticas e sem problemas morais. Agora cumprem-se as obrigações sem questionar o estilo do mundo. O que não levanta problemas e dúvidas também não deixa recordações. E por aqui anda a província, na sua grande tacanhez e pequena violência, na sua pequena intriga, no trabalho surdo da manipulação. Por aqui todos são aprazíveis cães do dono, fiéis e incultos. A curiosidade provinciana é maligna. A chuva que por aqui cai é sempre monótona e fria. Nas reuniões e na missa aprendemos a reprimir os bocejos, sobretudo quando a elas assistem os notáveis da treta. Pequenos industriais, pequenos comerciantes e pequenos políticos sentam-se à mesma mesa para distribuírem equitativamente as migalhas que sobram do manjar do poder central. E os que resistem são amavelmente colocados num plano inclinado onde não param de escorregar.

