Segunda-feira, 19 de Julho de 2010

O Homem Sem Memória

 

23 – Apesar da grande desilusão revolucionária que para si constituiu a grande manifestação popular contra o comunismo, contra o Partido e contra Punhal, na qual, resumidamente, o povo esteve contra o povo, José adormeceu como uma criança depois de ter apanhado os seus pais na cama a copularem com alguma intensidade erótica. Com o coração apertado e com o ciúme à flor da pele, desembocou num sono pesado. Apesar da enorme desilusão, sonhou. O cérebro de um rapaz, mesmo que ele seja comunista, portanto um filho dilecto do povo que o originou, é uma máquina imprevisível de imaginação, um delicado instrumento de recriação, ficção, manipulação e compensação. Por isso o José sonhou com os seus tempos de menino e moço quando era ainda um instrumento dócil nas mãos dos adultos, especialmente nas do padre Zé, nas da sua professora primária e, sobretudo, nas dos seus pais. Ou melhor, nas da sua mãe, a Dona Rosa, que era excessivamente manipuladora. Era capaz de o beijar com muito carinho, para, logo a seguir, o encher de porrada, dar-lhe chapadas ou fustigá-lo com o cinto do marido. Bastava arreliar-se com os vizinhos a pretexto de uma qualquer insignificância, para vir descarregar a fúria no José. O seu primogénito era o pião das nicas da família Ferreira. O pai chegava tarde a casa, o José é que as pagava. Por vezes, quando o pai se deixava ficar pelos cafés a conversar, a beber e a fumar, logo a Dona Rosa o mandava em busca do pai. José dava sempre com ele, o que não era nada difícil. O pai fazia-lhe uma festa na cabeça, oferecia-lhe qualquer guloseima e continuava a beber e a fumar e a falar com os outros homens também eles peritos na velha arte do convívio masculino. Por isso falavam sobre nada com uma subtileza argumentativa verdadeiramente digna de registo. Falar sobre nada durante horas, meses e anos seguidos, com intervalos para o trabalho e para as refeições, era uma velha arte cultivada nas pequenas vilas e cidades de província que merecia um estudo sério e aprofundado. O pai do José, o guarda Ferreira, bebia apenas vinho tinto. As outras bebidas tinham a particularidade de lhe provocarem náuseas e vómitos. E fumava. Fumava imenso. E bebia outro tanto. Bebia aos golinhos e fumava de forma peculiar. Chupava o fumo do cigarro sem filtro, a seguir expelia metade do fumo da chupadela e só depois é que enfiava para dentro dos pulmões o resto da nuvem fumarenta. Por isso, sempre que o José se lembra do pai, a sua imagem está sempre envolta em fumo. O guarda Ferreira é um rosto fino e seco, sulcado de rugas e com uns lábios grossos a abrir e a fechar, entaramelando palavras incoerentes, que, apesar da condição anárquica com que são proferidas, possuem a rara qualidade de fazer sentido aos ouvidos de quem as escuta, se, e só se, estiver habituado a descodificar aquela linguagem de bêbado cansado. Quase sempre, enquanto espera pelo pai, se senta numa mesa perto da televisão do café e vê o telejornal, ou um que outro programa cultural, tudo a preto e branco, que são as cores do regime. Alguma razão tinha de haver para, no meio daquela família pobre, o José ter saído tão culto. Assistiu a muitos programas de Vitorino Nemésio, apreciando o seu jeito de ciciar as palavras e de as pronunciar num contínuo sonoro musical. E foi isso o que conservou. O que já não é pouco. Sempre é melhor trautear um frase de Vitorino Nemésio, mesmo que pronunciada na castiça forma de cantar em inglês sem saber sequer uma única palavra desse dialecto universal, do que uma linha melódica da “E Viva a Espanha”, que era a cançoneta que mais se ouvia nas festas e arraiais de Montalegre. Também viu e apreciou os programas de João Villaret que, com as suas bochechas e os seus olhos a saltar e a tremer de prazer (como mais tarde contemplaria em Ary dos Santos), e na sua voz melodiosa e penetrante, declamava a marcha popular e triunfal do lirismo campestre, “tocam os sinos na torre da igreja”. Por vezes os programas tocavam-lhe tanto que ele sentia o seu pequeno pénis a ficar rijo, como quando por vezes acordava com vontade de ir urinar e não o fazia porque o penico estava longe e o frio fora dos cobertores era imenso. Com aquele frio até o tesão do mijo se desvanecia de forma incrível.

Foi naquela televisão que assistiu às cerimónias fúnebres de Oliveira Salazar, enquanto o seu pai bebia e fumava com os amigos como se quem tivesse morrido fosse o Branduras, um criado de servir a quem um porco tinha comida o pénis quando era bebé, que era um homossexual muito parecido com o João Villaret, só que mais pobre e acanhado, mas que, apesar de não recitar poesia, sabia tratar da horta e do quintal, sachar as batatas e arrancá-las, semear e ceifar o centeio, cortar com o machado pinheiros e carvalhos, arrancar torgos, encontrar os míscaros, pitar a lenha, cozer batatas, guisar carne e fazer um caldo com folhas de couve ripadas com unto que era um regalo, lavar a roupa, limpar o pó dos móveis, varrer, lavar e encerrar o chão das casas das famílias remediadas da vila e ouvir e calar impropérios indignos dos homens, que são muito mais capazes de tratar de afagar um animal, de bestializar uma cabra ou uma burra, do que respeitar um homem que o infortúnio fez diferente.


publicado por João Madureira às 09:00
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