Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

Nada é mais fácil do que morrer

 

“À tardinha, os notáveis turcos de Visegrad encontravam-se nas Portas, sentados de pernas cruzadas, em círculo, Segundo a importância de cada um. Entre eles estava Osman-efêndi, um homem alto, magro e pálido. No seu rosto, todos os músculos eram estranhamente contraídos, os olhos febris e a testa e as faces eram cheias de cicatrizes, como as dos epilépticos. Diante dele, de pé, Ali-hodza, corado, baixinho mas imponente, fazia cada vez mais perguntas com voz sibilante. «Quantos soldados? Para onde ir? Com que lutar? Como? Qual o objectivo? Que sucederia se não vencêssemos?» A altivez fria e quase maligna com que o imã abordava este assunto escondia os receios e a amargura que lhes inspiravam a superioridade dos cristãos e a fraqueza e a confusão evidentes dos turcos. Mas o exaltado e sombrio Osman-efêndi não era homem para notar ou compreender este género de coisas. O seu génio violento e impetuoso, e o fanatismo de nervos enfermos, bem depressa o faziam perder a paciência e o sangue-frio e caía sobre cada indício de dúvida e hesitação com uma fúria selvagem, como se de um austríaco se tratasse. Este imã tinha o condão de o irritar e levava-o a responder com ira mal contida, mas com lugares comuns e palavras ocas. Ir-se-á até onde for preciso e com o que se tiver. O essencial era não deixar o inimigo invadir o território sem combate e aquele que fazia muitas perguntas só entravava a causa e auxiliava o inimigo. Por fim, completamente fora de si, respondia com desprezo mal velado a cada pergunta do hodza: «Chegou a hora de morrer»; «Vamos arriscar as nossas cabeças»; «Morreremos todos até ao último».

Mas, afinal – interrompia o imã –, e eu a pensar que querias expulsar os germanos da Bósnia e que fora por isso que nos reuniste. Mas se é de perecer que se trata, nós sabemos morrer sozinhos, meu Efêndi, mesmo sem ti. Nada é mais fácil do que morrer.

– Estou a ver que tu tens medo de morrer – replicava grosseiramente Karamanli.

– E eu estou a ver que tu queres mas é morrer – respondia-lhe o imã cortante –, mas não vejo por que andas á procura de companhia para um negócio desajuizado.

A conversa degenerou, por fim, numa verdadeira peixeirada, na qual Osman-efêndi chamou a Ali-hodza porco cristão e traidor, um daqueles cuja cabeça deveria, como a dos cristãos, ficar a adornar as Portas, enquanto o imã continuava imperturbavelmente reclamando com insistência, razões e provas, como se não escutasse as ameaças e os insultos.

(…) A entrada oficial e solene das tropas austríacas so teve lugar no dia seguinte.

Pelo menos que o povo se lembrasse, nunca houvera um tal silêncio na cidade. As lojas nem chegaram a ser abertas. Nas casas, as portas e as janelas ficaram fechadas, apesar de ser um daqueles dias quentes e soalheiros de fins de Agosto. Ruelas desertas, pátios e jardins como mortos. Mas casas turcas reinavam o desalento e a confusão, nas cristãs a prudência e a desconfiança. Mas em todas elas – medo. Os austríacos que acabaram de chegar temem emboscadas, os turcos receiam os germanos, e os sérvios os germanos e os turcos. Os judeus, esses, tremem diante de todos, porque, sobretudo em tempos de guerra, todos são mais fortes do que eles. Todos eles carregam ainda os ecos do bombardeamento da véspera nos ouvidos. E se todas as pessoas tivessem obedecido ao medo, nem só uma teria posto os pés na rua nesse dia. Mas, qualquer homem tem os seus senhores e patrões.”

 

Ivo Andric – A Ponte sobre o Drina – Cavalo de Ferro


publicado por João Madureira às 09:00
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