Segunda-feira, 26 de Julho de 2010

O Homem Sem Memória

 

24 – O guarda Ferreira costumava demorar muito até se decidir ir para casa. Preferia de longe escutar os amigos dos copos a dissertar sobre nada e sobre coisa nenhuma, do que ouvir os impropérios da mulher sempre a criticar-lhe a inclinação pelo vinho e pelo cigarro na companhia de bêbados e debochados, em vez de estar em casa a jantar com a família. A mãe do José era uma mulher conflituosa, possessiva, de relação difícil. Para ela, quase todas as mulheres eram putas. Especialmente as mais novas e bonitas. Todas as semanas arranjava ao marido uma nova amante. E insinuava que era essa a principal razão porque não gostava de ir para casa fazer companhia aos seus, comer a comida que ela preparava no pote, aquecer-se à lareira, ensinar as contas aos filhos e rezar o terço antes de irem para a cama.

Mas o guarda Ferreira demorava sempre o tempo de mais um copo e de dois ou três cigarros antes de se decidir ir para casa. O José também se deixava ficar ali na modorra a ver a televisão, a comer um bolo e a beber um Sumol. Estava visto que nenhum dos dois apreciava os jantares em família. E como quase todas as noites a sua mãe lhes pregava um sermão, a um porque só bebia e fumava e a outro porque não estudava e era incapaz de ir buscar o seu pai e trazê-lo para casa a horas de cear; tanto o guarda Ferreira como o seu filho não se moderavam em adiar sempre mais um pouco a hora de recolher.

Muitas vezes, antes de chegar a casa, o pai do José amparava-se na esquina da casa do Padre Zé e vomitava o vinho que tinha bebido. Depois sentava-se num muro que havia por ali perto e fumava mais um cigarro. Falava pouco com o filho, mas apreciava a sua companhia, porque o José não o censurava, nem sequer com o olhar. Por vezes, pai e filho olhavam para o céu estrelado. Nessas alturas o guarda Ferreira fazia sempre o mesmo comentário: há tantas estrelas no céu, meu filho, que até dá que pensar qual a razão da nossa existência. Então José olhava para o rosto do pai, sempre um rosto triste, e murmurava: pois é pai, a vida é fodida. Com um sorriso nos lábios, o guarda Ferreira perguntava ao filho onde tinha aprendido pensamentos tão profundos e a dizer asneiras na presença de um guarda-republicano.

Custava-lhes sempre ir para casa. Mas os últimos metros eram uma autêntica via-sacra. Abriam o portão a custo, atravessavam os dez metros do pátio como quem transporta um saco de batatas às costas, subiam as escadas como se elas os levassem à forca, abriam a porta de casa como se fosse a da prisão e por fim lá descortinavam a mãe, a temida Dona Rosa, como se fosse uma loba no cio, a rosnar de raiva, a ameaçar e a ferir os seus com palavras cruas e duras. Por vezes fazia que desmaiava, pretextando um ataque nervoso. Punha tudo em sobressalto: filhos, marido, vizinhos e até o cão. O Leão era o único que ainda se surpreendia com o teatro que ela protagonizava, o pobre inocente. O cão era-lhe fiel e dedicado. Ela batia-lhe muito, em excesso. Aquela mulher fazia tudo com excesso. Batia no Leão com uma vergasta. E ele, que era um cão possante, apanhava a porrada sem se mexer, gania como que a pedir desculpa, e, no fim, chorava, ia lamber-lhe as mãos e deitava-se aos seus pés, como que a protegê-la. O Leão era, por isso, o único que recebia o carinho da mãe do José. Talvez porque o tratamento resultava no cão, ela estendia-o aos filhos para ver se obtinha o mesmo resultado. Ao marido, na impossibilidade física de o fustigar com a chibata, vergastava-o com palavras azedas, sujas, impróprias de uma mãe e mulher.


publicado por João Madureira às 09:00
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