Sexta-feira, 30 de Julho de 2010

O carneiro de Jesus

 

“Sempre que a senhora Margit tinha ou lido demasiado ou comido muitos restos de hóstias, ficava com o estômago tão santificado que, ao descascar batatas, tinha de arrotar e praguejar ainda mais. Desde que conhecia a Senhora Margit que para mim santificado remetia para um ramalhar branco, seco na boca, que provocava arrotos e pragas.

O seu Jesus fora comprado à pressa de um saco de crucifixos com Jesus, entre o autocarro e as escadas do santuário, numa peregrinação de Agosto. O Jesus que ela beijava não era mais que os restos de um carneiro de chapa da fábrica, o regateio aldeão de qualquer operário de dia ou de noite, entre turnos. A única coisa justa neste Jesus da parede era o facto de ter sido roubado e enganar o Estado.

Como os demais Jesus do saco, também este significara dinheiro para a pinga à mesa da tasca, no dia a seguir à peregrinação.

A janela do quarto da Senhora Margit dava para o pátio interior. Ali havia três grandes tílias e, à sombra delas, tão grande como um quarto, um jardim abandonado com um buxo quebrado e erva alta. No rés-do-chão da casa viviam a Senhora Grauberg e o neto e o Senhor Feyerabend, um homem velho de bigode negro. Era frequente vê-lo sentado num banco à porta de casa a ler a Bíblia. O neto da Senhora Grauberg brincava no buxo, e a senhora Grauberg gritava, de tantas em tantas horas, a mesma frase para o pátio: Anda comer. Em resposta, o neto gritava-lhe sempre a mesma frase: O que é o comer? A senhora Grauberg levantava o braço e sacudia a mão a ameaçar palmadas e depois gritava: Espera que eu já te vou mostra. A Senhora Grauberg tinha-se mudado da Mondgasse para aqui, com o neto. Não suportava continuar a viver na casa da cidade fabril, porque a mãe do neto tinha morrido de cesariana na Mondgasse. Pai não havia. Já não se reconhece a cidade fabril na Senhora Grauberg, dizia a Senhora Margit, a Senhora Grauberg arranja-se sempre de modo inteligente para ir à cidade.

A Senhora Margit dizia ainda: Os Judeus ou são muito espertos ou muito estúpidos. Esperteza e estupidez não têm nada a ver com o saber muito ou pouco, dizia ela. Há alguns que sabem muito, mas não se pode dizer que sejam espertos, outros sabem pouco, mas não se pode dizer que sejam estúpidos. Saber e estupidez só têm a ver com Deus. O Senhor Feyerabend é de certeza muito esperto, mas tresanda a suor. Isso já não tem nada a ver com Deus.

(…) A desconfiança fazia com que tudo aquilo de que me cercava escorregasse para longe de mim. Observava os meus dedos em cada gesto, mas não conhecia a verdade da minha própria mão melhor que os dedos da minha mãe ou os dedos de Tereza. Sabia tão pouco sobre ela como sobre o Ditador e as suas doenças, ou sobre os guardas e transeuntes, ou sobre o Capitão Pjele e o cão Pjele. Também já nada sabia sobre carneiros de chapa e operários ou sobre a modista e as paciências para ler a vida. E tão-pouco sobre fuga e sorte.

Na fábrica, mesmo junto à empena, que, no seu ponto mais alto, olhava para o céu e, no mais baixo, para o pátio, havia uma palavra de ordem:

Proletários de todo o mundo uni-vos.

E cá em baixo, no chão, andavam os sapatos que só poderiam sair do país se fugissem. Os sapatos escorregadios, empoeirados, ressoantes ou silenciosos calcorreavam o empedrado. Intuía que eles tinham outros caminhos, que, como tantos outros sapatos, um dia deixariam de passar por baixo desta palavra de ordem.

(…) Aqui na fábrica ninguém tinha esperado por Paul, nem sequer uma hora. Não teve sorte, diziam, depois de ele não comparecer ao trabalho, como tantos outros antes dele. Faziam bicha na loja. Quando a morte era servida a alguém, avançavam um lugar. Que sabiam disso o leite do nevoeiro, os círculos de ar, ou a curvatura dos carris. Uma morte tão barata como um buraco no bolso: metia-se a mão lá dentro, e o corpo todo era sugado. A obsessão assaltava-os com mais força quanto mais pessoas morriam.

Murmurava-se de modo diverso sobre os mortos das fugas que sobre as doenças do ditados. Este aparecia ainda no mesmo dia na televisão e afastava a proximidade da morte com a resistência dos discursos mais longos. Enquanto discursava, descobria-se uma nova doença, para o empurrar para a morte.

(…) Quando tanto a Senhora Grauberg como o Senhor Feyerabend e eu deixávamos de seguir com os olhos mais as meias brancas até ao joelho do que o miúdo, a porta da Senhora Grauberg fechou-se. O Senhor Feyerabend disse: Como está a ver, as crianças saúdam como faziam sob Hitler. Também o Senhor Feyerabend atentava nas palavras. Tchau era para ele a primeira sílaba de Ceausescu.

 

Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes – Difel


publicado por João Madureira às 09:00
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