Sexta-feira, 27 de Agosto de 2010

O Homem Sem Memória

 

27 – Mas se o dia foi patético para a família Ferreira, a noite revestiu-se de dramatismo.

O guarda Ferreira chegou a casa já tarde, cansado, esfomeado e, pior do que isso, sedento de vinho. Toda a tarde a passou a água, ele que era criatura para beber dois litros ou mais de tintol, e apenas fumou dois cigarros, ele que era homem para fumar quarenta por dia. Por isso a falta de nicotina e de álcool no seu corpo exigia vingança. E neste caso a vingança foi cega.

Estava ele a lavar os pés em silêncio, no que era seguido pelo mutismo dos filhos, da mulher e até dos porcos na corte, quando pediu ao José que lhe chegasse a toalha.

Imediatamente a mãe lhe insinuou uma ordenação: “Deixa-te estar quieto, meu filho. Ele que a vá buscar.” E o pai outra vez: “Chega-me a toalha, filho”. E a mãe: “Estuda meu filho. Ele que a vá buscar. O bêbado”. Novamente o pai: “Por favor, José, chega-me a toalha para limpar os pés. Hoje fartei-me de andar. Tenho os pés em carne viva”. E a mãe: “Deves ter é andado de adega em adega durante a patrulha. Não lhe chegues a tolha, filho. Ele que se levante e que a vá buscar, o bebedolas. Gasta o dinheiro nos cigarros e destrói o fígado à custa de tanto beber. Bebe este mundo e o outro. Enche o odre de vinhaça e depois fuma cigarro atrás de cigarro. Fuma e bebe. Bebe e fuma. E tinha de me casar com um homem destes. Era melhor que tivesse partido uma perna no dia em que aceitei namorar com ele. Ainda hoje não sei como me deixei engravidar por um madraço destes. E o pai: “Chega-me a tolha, José. É a última vez que te peço”. A mãe determinada: “Não lha chegues, meu filho. Ele que a vá buscar”.

Cego de raiva, o guarda Ferreira pegou no cubo de sabão macaco com que ensaboou os pés e arremessou-o na direcção do filho, que, de pé, não conseguia decidir-se entre as ordens contraditórias do pai e da mãe. Se obedecesse ao pai, a mãe passaria a torturá-lo durante uns dias. Se desobedecesse à mãe, o calvário porque passaria era capaz de igualar o de Cristo durante o julgamento perante o seu povo e Pôncio Pilatos.

“Bom povo de Jerusalém, deste lado tendes Cristo, que se intitula Rei dos Judeus, mas que não cometeu nenhum crime. No entanto, os vossos líderes querem-no ver crucificado. E deste outro está Barrabás, um assassino e ladrão. Valendo-me da tradição, apelo ao povo para que escolha qual dos dois acusados deve ser solto”. E o povo gritou bem alto: “Barrabás”. “E qual deve ser crucificado?” Então o povo vociferou a plenos pulmões: “Jesus”. Pilatos, que era romano, mas não era bárbaro, nem judeu, tornou a ponderar: “Bom povo de Jerusalém, Jesus não cometeu nenhum crime a não ser o de se intitular Rei dos Judeus, por isso, e para vos satisfazer, mandei flagelá-lo e depois exibi-o perante vós ensanguentado, acreditando que vos comoveria. No entanto continuais a exigir aos berros a sua crucifixação. Não estareis a exagerar um pouco? Jesus Nazareno não cometeu nenhum crime. Barrabás sim. Barrabás matou e roubou. Por isso torno a perguntar-vos: Quem quereis que liberte? Jesus ou Barrabás?” Ao que o povo, na sua imensa sabedoria, como muito bem explicam os textos sagrados, respondeu num coro imenso como quando agora os veneradores da bola gritam golo nos campos de futebol: “Barrabás”. Munido de paciência divina, novamente Pilatos apelou ao senso comum, por definição popular. Apesar de governador imperial, a quem tanto fazia mandar matar um como outro, mas a quem o mínimo sentido de justiça exigia uma conduta ética e honrada, voltou a apelar ao bom povo judeu, deixando cair propositadamente o adjectivo: “Povo de Jerusalém, deste lado está Jesus Nazareno que nada de mal fez a não ser apelidar-se Rei dos Judeus, que sendo objectivamente uma mentira, não advém daí mal ao mundo, nem prejudica concretamente ninguém. E para demonstrar que aplico a justiça já o mandei flagelar. Por isso aqui está ele perante vós a sangrar como um cavalo de quadriga depois de fustigado pelo látego de um possante gladiador romano. Deste outro lado encontra-se Barrabás, que é um ladrão e assassino confesso, com muitas mortes às costas. Por isso vos faço novamente a pergunta: Quem devo libertar? Barrabás ou Jesus? Jesus ou Barrabás?” Ao que o bom povo respondeu com gritos histéricos: “Barrabás. Barrabás. Barrabás”. Depois de tamanha teimosia, e porque já estava cansado de tanta sabedoria popular e de tanto sentido de justiça por parte do povo, nervoso e a suar, dali se foi a lavar as suas mãos delicadas e brancas. Não os pés calosos e encarquilhados, como o guarda Ferreira, mas as mãos finas e alvas, que eram a sua principal ferramenta de trabalho.

Barrabás foi libertado. Jesus foi crucificado. José, atingido com violência no estômago, caiu ao chão como um saco de batatas e desmaiou. A Dona Rosa engoliu em seco, o Joãozinho arranhou a mãe o mais que pôde, os restantes irmãos começaram a chorar e o Leão aproveitou o momento para descer as escadas e ir mijar ao terreiro. Por ser meio vidente, ou apenas um amigo curioso e atento, surgiu, vindo da escuridão, o Virtudes, que pegou no José e o levou de imediato ao endireita. A Dona Rosa agarrou nos filhos e foi com eles chorar para o quarto. Só o João, que estava deitado no escano, é que se deixou ficar quieto a observar o pai a levantar-se e ir buscar a toalha com a qual limpou os pés. Depois pegou num prato, levantou o testo do pote que estava ao lume, tirou meia dúzia de batatas, couves e um chouriço que espetou com o garfo para ver correr o molho gorduroso e fumegante que se espalhou pelo prato dando-lhe uma textura de caldo de carne apetecível. Finalmente começou a comer com apetite. 


publicado por João Madureira às 09:00
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