Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

30 – Enfiava cada botão dourado através de um círculo feito numa ponta duma régua de madeira com uma linha aberta ao centro, colocava as meias-esferas com o símbolo da GNR todas juntas, pressionava-as, friccionava-as com um líquido espesso semelhante a café com leite, depois puxava-lhes o lustro com um pano e com uma escova pequena. No final regalava-se a contemplar-lhes o brilho amarelo. Pareciam feitos de ouro.

Depois dos botões do capote azul, dava lustro às várias insígnias da farda. Por fim escovava convenientemente o chapéu circular. A missão apenas ficava completa quando engraxava as botas e as polainas do uniforme do guarda Ferreira.

Um dia, perto do Natal, o pai do José arranjou-se para sair de casa como quem vai fardado para fazer a guarda de honra a uma visita do Presidente do Conselho: botas e polainas rigorosamente engraxadas, farda engomada, capote e chapéu impecavelmente escovados e passados, insígnias reluzentes; numa mistura de cheiros entre o melífluo da alfazema, o metálico do óleo e o enjoativo da naftalina. Assim fardado parecia um GNR dos que surgiam nas brochuras de propaganda do regime.

Como tinha nevado muito durante a noite, a madrugada foi gasta a acender o lume, a aquecer a vianda para os recos, a preparar o mata-bicho e a desobstruir a entrada do quintal e as escadas do manto de neve que lá se depositou.

Antes de sair de casa, o guarda Ferreira depôs na palma da mão do seu filho uma moeda de cinco escudos e fez-lhe uma festa na cabeça. Um gesto carinhoso que não era despiciendo. Nem para quem o praticava nem para quem o recebia. Toda a família tinha uma necessidade urgente de carinho. Mas ninguém estava para aí virado. Ali era tudo muito mais de receber do que de dar. Por isso é que os gestos verdadeiramente humanos eram raros. Uma carícia, uma palavra doce, um olhar atento, um beijo, eram atitudes tão raras na família como o dinheiro no bolso do guarda Ferreira. Mas se o dinheiro era uma coisa que era preciso ir ganhar lá fora, os afectos podiam ser encontrados em casa. Só que ninguém os procurava porque a vida embrutecida lhes entorpecia os sentimentos.

No momento quase triunfal do guarda Ferreira descer as escadas, o Leão ladrou uma saudação e o Virtudes atirou-lhe um piropo feminino. Na cozinha, a Dona Rosa mastigava uma côdea, trincava uma pele de bacalhau para ganhar leite nas tetas com que alimentar o filho mais novo e fixava o lume com uma atenção de bombeiro. Logo atrás do pai, saiu o José, não sem antes aviar o dejejum à bicharada.  

Um dia de nevão em Montalegre era uma bendição para os mais pequenos. Não havia escola e não se realizava nenhum trabalho nos campos. Ou se ficava em casa a comer e a dormir ou se ia para a rua brincar com a neve. A rapaziada lançava bolas de neve uns aos outros ou então fazia escorregas nos passeios das ruas mais inclinadas para servirem de armadilha aos incautos.

Vinha um e punha-se a escorregar com os pés durante alguns metros, depois vinha outro e fazia o mesmo. Seguia-se outro e outro até a pista ficar em gelo compacto e esplendidamente escorregadio. Quando a armadilha estava concluída, os rapazes iam esconder-se atrás dos valados de neve do outro lado da rua e punham-se a observar os adultos que por ali se atreviam a passar. 

Primeiro passou o padre Zé, que por ser tão desconfiado como o Mafarrico, desceu do passeio e decidiu caminhar pelo meio da rua. Seguiu-se a professora Rosalina, uma rapariga nova que namorava com o escrivão do Tribunal e que costumava ir para a Mijareta arrulhar de forma tão intensa que, envergonhada e arrependida, por lá deixava os preservativos que, volta e meia, eram aproveitados pelas crianças das cercanias como balões e com eles se entretinham a brincar. Como vinha da farmácia, e parecia tão entusiasmada, os rapazes combinaram mais uma visita ao sítio onde o casal de namorados costumava marcar os seus encontros. Mal pôs o pé direito no espaço vidrado, o seu corpo acelerou a trajectória, as pernas deslocaram-se mais do que o corpo, projectando-a para trás, dando uma valente cuzada. Não fosse a donzela provida de uma seira abonada e podia ter-se magoado com gravidade. Mas com um cu daqueles, começou aos pulinhos e escorregou tão graciosamente que o seu tombo pareceu não obra do acaso e da malandrice dos rapazes, mas antes um exercício treinado e tão bem executado como quando aplicava a camisa-de-vénus no pénis erecto do seu namorado, que era, salvo-seja, um aflito. Ela, com toda a pedagogia de que era capaz, bem dizia ao namorado, tem calma, Manuel, tem calma. Mas pela cara descontente da donzela, até aqueles garotos, que tão pouco sabiam dos segredos do amor, intuíam que o Manuel não conseguia manter a calma que lhe era devida para que a coisa resultasse a contento para a professora e para o escrivão. Sobretudo para a professora, coitada, que gostava das coisas bem feitas e que sabia também que para isso acontecer é preciso muita habilidade e paciência. Mas essas eram precisamente as artes que o seu namorado não possuía.

Ainda os rapazes se estavam a rir do trambolhão da professora quando na esquina da rua apareceu o guarda Ferreira. O José, que naquele momento se encontrava de costas para a estrada, não se apercebeu de quem lá vinha. Nem ninguém lhe disse nada. Quando se inteirou da presença do pai, já ele tinha posto o pé na fina camada de gelo. E caiu desamparado. O chapéu rolou para longe. O guarda Ferreira tentou levantar-se aprumado como um GNR, mas voltou a desabar. Novamente tentou e mais uma vez caiu. Os rapazes riram-se muito. Fartaram-se de rir. O José começou a chorar. Os seus colegas cada vez se riam mais. O guarda Ferreira deslocou-se mais um pouco de joelhos, apanhou o chapéu e novamente se tentou pôr de pé. Caiu outra vez. E outra. E mais outra. Por fim, rastejou para fora da pista de gelo e, com o capote cheio de neve, levantou-se e começou a correr para fora dali, com a vergonha estampada no rosto.


publicado por João Madureira às 09:00
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