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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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20
Mai24

683 - Pérolas e Diamantes: Não é boa ideia...

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 3 (3).jpg 

Não é boa ideia apostar em empates. Nem no totobola. O universo resume-se a matemática e probabilidades. Os que gostam de probabilidades costumam dizer que as chances de vencer a lotaria são de uma em catorze milhões, a de morrer num acidente de carro são de uma em quatro mil e, de acordo com o relatório Kinsey, as probabilidades de se nascer gay são de uma em dez. Apesar das probabilidades, e sem que a maior parte das pessoas se aperceba, todos os dias acontecem coisas insólitas. A maioria dos indivíduos, também sem que se apercebam, andam em maré de azar. E depois também há aqueles que estão no lugar errado à hora errada. Este país está poluído de memórias, infetado de cleptomaníacos e repleto de gente desconfiada. Está cheio de perguntas úteis e respostas inúteis. Tudo o que é importante acontece lenta, silenciosa e solenemente. Este é o país onde até os que se dizem agnósticos ou ateus vão à missa rezar para que os vejam e os julguem bons pais de família e batizam os seus filhos ou netos para que não os descriminem nas escolas públicas, pois das privadas nem é bom falar. A seu tempo, tudo bate certo. Todos vão ao rego, como gado manso ou emasculado. Os bons samaritanos não passam de personagens de parábolas assépticas. Depois de expostas as mentiras surge o tempo de reparar as injustiças. Sim, podem continuar a rir-se, mas o desafio fica feito. Atenção, pois, aos semáforos. Podendo, o melhor é sempre dizer a verdade. Ninguém lê livros recebidos de presente. Ninguém lê livros. Os cheiros dominantes neste país são de Chanel Nº 5, comprado nos chineses, e tristeza. Nossa Senhora anda a vingar-se da oferta que Dom Afonso Henriques lhe fez em troca da sua ajuda nas batalhas contra os mouros. Melhor seria ter ficado quieta. Eu gosto de dar profundidade àquilo que é superficial, dar textura àquilo que é liso e conferir sentido ao trivial. E por aqui andamos nós, os acumuladores natos de coisas inúteis, a tentar dar-lhes sentido. Daí o gostarmos de pausas dramáticas. Quando queremos saber dos defeitos e das virtudes de um povo, o mais indicado é primeiro apontar na direção dos líderes. Nem toda a gente anda aqui a brincar. Mas parece. O lugar-comum é a modos que verdadeiro: este país está cheio de quem muito fala e pouco faz. E também de quem pouco aprende. Gente que apanha boleia dos ventos propícios e costuma barafustar quando eles são contrários. As autoestradas estão calmas, o oceano, lá para o litoral, ronrona. Agora. No verão, o interior arderá e chorará e terá as visitas piegas e choramingonas do pm e do semipresidente. Temos aquilo que merecemos. Com mordomos destes, a festa tem de ser sempre pífia e sensaborona. Todos se mostram agradecidos. Há quem ande por aí a moer malaguetas para colocar um pouco de picante na aletria. Afinal, a molenguice resulta desta geração de meia idade ter sido criada a ler Enid Blyton e a ver filmes do Trinitá. Cowboys num western spaghetti resultam sempre em charada. Pois é, saíram assim insolentes, insolventes e justiceiros. Já os seus pais deleitaram-se com os pátios das cantigas e com o dedal da costureirinha e com os delicoparvos do Grandela e com as barrelas da aldeia da roupa branca e com os chapéus dos fadistas que visitavam os jardins zoológicos. As pessoas estão dispostas a acreditar em tudo, menos na verdade. Até porque ela costuma doer como as injeções de penicilina. Este país é frágil como uma mala de cartão. Razão tinha a Linda de Suza. Os portugueses são ferozes quando querem, que é quase nunca. A verdade é que se sentem desobrigados de tudo por causa dos seus líderes. Mas não desistem. Mas também não insistem. Bons conselhos e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. O melhor é entrar no modo silencioso, como os telemóveis. O óbvio está sempre perto de nós. E nós perto dele. Já nos levaram várias vezes ao engano. O sentido de oportunidade é tudo. Há ventos a soprar em todas as direções. Mas esta terra está abençoada logo desde o seu nascimento. Sim, eu sei, amamos o nosso país de forma incompleta e ele retribui-nos da mesma maneira. Umas vezes dá-nos para o jogo, outras para a astrologia e ainda outras para o drama. Ninguém no planeta joga tanto como nós. Somos os reis das raspadinhas. E isso diz tudo.

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