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03
Jun24

684 - Pérolas e Diamantes: Entre Husserl e Faulkner

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia (1).jpg 

A tese que serve de base à minha escrita, perdoem-me a ousadia, resulta da fusão entre a filosofia alemã (nomeadamente da fenomenologia de Edmund Husserl e também de Heidegger, que foi seu discípulo) e a ficção americana. A guerra que alguns julgam poder existir entre elas é a metáfora que me dá alento. E inspiração. A minha mundividência é essencialmente livresca. Afinal, não passo de um escritor sem posses para percorrer mundo. Os estilos e as ideias deslocam-se, como eu, entre a casa e o trabalho. Para mal dos meus pecados, tudo o que leio é literatura traduzida, pois não domino minimamente o alemão e entendo pouco de inglês. Ou seja, desloco-me entre estes contextos, que são quase como muros. Sartre afastou-me das letras francesas modernas por causa de O Ser e o Nada (L’Être et lê néant). Mas também li que este ideólogo revolucionário conseguia imitar quase na perfeição o Pato Donald. Apesar do seu amor essencial por Simone de Beauvoir, e de ela por ele, apesar do seu estrabismo divergente provocado por uma constipação aos três anos, achava que deviam ambos conhecer também amores contingentes. Mas voltemos ao que interessa. O “nada” sartriano, ou “néant”, se preferirem, levou-me ao “Was Ist Metaphysik?” (O que é a metafísica?) e dali apenas consegui sair a muito custo. Apesar da leitura dessa obra de Heidegger, o que me ficou foi a formulação de Sartre de que os seres humanos não são o que são e são o que não são. Já a literatura americana bateu-me forte com o romance Manhattan Transfer, de John dos Passos, que apreciei pela sua maneira original de representar uma cidade moderna como um palimpsesto de experiências simultâneas, mas descontínuas. Ler filosofia alemã é meio caminho andado para escrever frases destas. Depois daí saltei para Faulkner. E também para Hemingway. E Flannery O’Connor, Steinbeck e Caldwell. A sexualidade da meia idade compreendia através das leituras intermitentes das páginas ímpares dos romances de Philip Roth. Para que se saiba, quase nenhum dos escritores franceses influenciados pela ficção americana tinha ido alguma vez aos Estados Unidos. O conhecimento que tinham acerca da natureza americana resultava da leitura dos romances traduzidos e dos filmes de Hollywood. Mas, como escreveu Louis Menand, “o desvio interpretativo faz parte da transmissão”. Ao contrário de Coindreau, tradutor de Faulkner para francês, considero que os enredos ao estilo “Grand-Guinol”, de horror gráfico e amoral, dos romances do escritor americano, bem assim como a idiotia, os assassínios, as violações, o incesto, o racismo e a depravação em geral, não podem ser ignorados. Ele achava, e a meu ver erradamente, que nas obras de Faulkner, o tema era apenas um pretexto para o desenvolvimento da técnica. Mas, provavelmente, foi o que mais ficou. A escrita de António Lobo Antunes é o prova provada disso mesmo. De facto, Faulkner alcançou uma poderosa representação do tempo vivido ao subjetivar completamente a narração e fazer implodir a distinção entre perceção e memorização. Daí a razão pela qual muitos leitores, eu incluído, têm dificuldade em perceber a sua obra. Para Faulkner, o pensamento era apenas a soma das nossas intenções e o caráter a soma das nossas ações. Já Hemingway nunca entra nas suas personagens. Limita-se a descrevê-las do lado de fora. Os seus heróis nunca se explicam a si mesmos. Limitam-se a agir. Ora isto era a rejeição completa do romance francês, nomeadamente o estilo do paradigmático Proust, cuja especialidade consistia na introspeção e na análise. A maioria dos escritores franceses apostavam na descrição da vida interior. Os americanos apresentavam nos seus livros uma sequência de ações sem comentário, como a cena de um filme. Apenas Faulkner dava saltos desordenados no tempo, porque tinha lido Bergson. Ou seja, coincidia com Proust, porque também ele se tinha inspirado em Henri Bergson. Apesar da sua militância marxista, Sartre, quando esteve no exército, sonhou ser um homem de ação irrefletida. Cito: “O meu trabalhador americano (semelhante a Gary Cooper) poderia fazê-lo e senti-lo. Imagino-o sentado num talude dos caminhos de ferro, cansado, coberto de pó; estaria à espera do vagão dos animais [le wagon à bestiaux], para onde saltaria sem ser visto. E eu teria gostado de ser ele [um homem] que pensava pouco, falava pouco e fazia sempre o que estava certo.”

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