Segunda-feira, 11 de Outubro de 2010

A noção de poema

 

Olá disse ele, olá disse ela, olá disseram os dois ao mesmo tempo e ao mesmo tempo também disseram que lindo dia de sol para depois ele dizer que se sentia feliz porque vida há só uma e mulher da sua vida também e ela olhando-o fixamente com os seus lindos e estrábicos olhos disse amo-te tanto que até me esqueço do tracinho e ele corrigiu-a, amavelmente, por certo, lembrando-lhe que o tracinho se chama hífen e que adora ímanes femininos que o atraem como a cafeína e a nicotina e a adrenalina e que as relações sexuais o libertam do bulício de todos os dias e que não existe outra realidade para além da realidade de um corpo tenso de desejo ao que ela respondeu que também por aí anda à procura da vida e do desejo e da espuma dos dias e do brilho das estrelas e da vida vivida com a intensidade dos sábios e dos ascetas que gostam de viver para contemplar e de contemplar para viver e de olhar para a vida com olhos de inclusão porque compreender é perdoar e, deus do céu, sinto-me tântrica, disse ela sem gaguejar, quando olho para ti com o espírito de te incluir por que se há coisa de que eu gosto é de incluir, sobretudo a ti, e depois observar para posteriormente concluir e sentir e desejar e eu desejo-te tanto, mas tanto, que me sinto infeliz que, mesmo não parecendo, é a forma superior, intelectualmente falando, de felicidade, mesmo que aparentemente invertida, como invertida é a noção da realidade, porque a realidade, o que nós apelidamos de realidade, não existe, o que sim existe é a ficção, a tua ficção, a minha ficção e a obsessão, então ele interrompeu-a porque achou que devia e confirmou tudo o que ela disse e sublinhou a parte da inclusão e do desejo porque o desejo é sempre a afirmação superior de estar vivo porque estar vivo é tentar possuir algo, a posse é o instinto básico da sobrevivência e para cada um sobreviver é preciso querer e querer um corpo é bonito e essa beleza só pode desaguar no desejo porque a beleza não existe senão na forma de arte, porque, bem vistas as coisas, copular é uma arte, a primeira arte, a arte mais praticada, a arte mais popular, a arte antes e depois do pecado, porque deus também pecou, e peca, quando gerou cristo, o que nos leva ao mistério da religião, a religião é uma outra forma de linguagem do prazer e da transcendência, porque toda a transcendência, sendo religiosa, é também a forma superior de redenção e eu quero render-me ao teu corpo, possuindo-te agora por palavras que nos aproximam concomitantemente da realidade dos corpos e, valha-me deus, da sensação total da vida e tu és a minha vida e eu sou a tua vida e nós os dois, por incrível que pareça, somos a vida de todos porque a sublimamos e no sublimar é que está o ganho, ó inferno da carne, eu já ardo, e tu cegas-me, não sei o que mais desejo em ti se tu mesma se as tuas palavras porque as tuas palavras sabem-me tão bem, mas tão bem, que não sei se me aguento sem fazer mesmo aqui um escândalo, tu és o meu escândalo privado e o teu ligeiro estrabismo realça o prazer que eu sinto subir-me pelo corpo como uma cobra, a tal do pecado, e ela, eva e cobra ao mesmo tempo, interrompendo-o, reafirmou-lhe a noção do poema e da escrita, porque a escrita, sobretudo a escrita de poesia, é amor é desejo é prazer, e sublimação, e uma mulher, que é mulher sem preconceitos, ama tanto, e tão bem, ou tão mal, como um homem, pois uma mulher no cio é como o vulcão dos capelinhos, sempre pronta  a entrar em erupção, sim, eu sei, disse ele, mas a imagem física do vulcão a entrar em erupção é sobretudo uma imagem de amor no masculino,  no entanto estou de acordo na ideia de que uma mulher não é um adjectivo é, antes, o magma submerso e fundador da terra, ou, quiçá, o verbo profundo e fundador da escrita, e eu desejo escrever em ti, como abraão, o pai criador da compaixão, e escrever poemas de amor e romances de amor e cartas de amor e receitas de amor e menus de amor e ensaios de amor e dissertações de amor… e, interrompeu ela, com o seu sentido de humor apurado, novelas de escárnio e maldizer, objectivamente falando, conclui ele, vamos até minha casa ver o… ps, nestas, ocasiões, dizem os especialistas, ... muito mais do que uma mulher nua, os homens gostam de mulheres provocantes, com lingeries agressivas, mas, cara leitora, os homens fogem da vulgaridade como Cavaco Silva da intervenção política, o Manuel Alegre da realidade económica, o Sócrates do fulgor dos primeiros dias de governação, o Passos Coelho da responsabilidade institucional e… relativamente à lingerire masculina, caro leitor, as mulheres, com o sentido prático que todos lhes reconhecemos, dão-se por felizes com uma erecção, mesmo simples, apreciando, no entanto, que ela seja natural, pois não vá dar-se o caso de o amante se finar antes de terminar a sua tarefa devido aos estimulantes químicos e ponto final. E, Deus do céu, talvez uma erecção matinal nos ilumine a todos. No entanto, por favor, evite os excessos. E, sobretudo, os desperdícios.


publicado por João Madureira às 09:00
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