Quarta-feira, 27 de Outubro de 2010

O Poema Infinito (19): a nudez, o gozo e a salvação

 

Estamos nus e gozamos. Nascem do teu corpo os séculos líricos onde os poetas dormem a sua inércia sonâmbula como se fossem raízes de sicómoros onde presumivelmente Judas se enforcou por causa da taxa cambial da traição sem se interessar verdadeiramente com a qualidade dos figos nem com o seu grau de doçura. E quem nunca sentiu o travo amargo da traição que atire a primeira pedra. E quem nunca sonhou ser rico que atire os primeiros trinta dinheiros. As paisagens nos teus olhos são agora tão suaves como poemas japoneses. Felizmente que os anjos continuam a existir na vaidade libertina dos amantes. Nasce de ti a plenitude densa das imagens puras. E os nossos corpos navegam e cavalgam como a vida exaltada. Está na hora dos anjos exactos. Santo Deus da Misericórdia acode à evidência dos espíritos aflitos de todos aqueles que não choram por causa da altivez da sua dor. Deus Santo auxilia os que utilizam as palavras plenas da fragilidade dos ornamentos. Agora as tuas pálpebras ganham a densidade sussurrante da infância. São tão nítidas como o voo glorificado dos pássaros de Inverno. O meu destino foi desviado na primeira posse do teu corpo quando a tua vagina sabia ao sal frágil da puberdade. Sinto de novo as titilações brancas do desejo. Oiço a claridade gritar sonhos abstractos. Sinto o abraço infinito do sorriso das avós. Sinto o gosto a terra molhada dos teus lábios. Sinto o sabor escuro da noite. E a sua espessura e a obliquidade da luz dos espelhos. Sinto a proximidade do mar e o amor cansado das cidades estranguladas onde os homens morrem caindo directamente das imagens. Sou agora o tempo concreto da ausência. A hecatombe das ruas agrestes, Deus e o Diabo na terra do sol. Dizes: possuis o sabor amargo dos sonhos proibidos. Dizes: és cada vez mais o tempo ausente nos olhos dos alucinados. Dizes ainda: os teus sonhos cada vez se perdem mais nas mãos dos amigos. Sim, eu sei da desordem implacável do tempo das utopias. Sim, eu sei que jurei viver até ao fim. Sim, eu sei do rigor caótico dos meus versos sombrios. Sim, eu sei dos orgasmos curtos e dos poemas disfarçados de poemas e dos orgasmos disfarçados de gemidos corajosos na sua perfeita mentira. Sim, eu sei dos vícios impessoais que fingimos ser destino. Este é agora o tempo do silêncio comprimido das armas disfarçadas. Este é o tempo dos muros dourados da tolerância e do amor obrigado e das árvores afogadas em ecologia e dos direitos cansados dos trabalhadores sindicalizados e encolerizados e organizados pelas cores da inércia e da desilusão e da ilusão e do implacável logro da igualdade. Deus da Lucidez atende à sedenta lucidez dos abismos dos crápulas porque é deles o reino dos céus. Tu dizes, por fim, as palavras cegas de lucidez: salve-se quem puder.


publicado por João Madureira às 09:00
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Novembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


18
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Na aldeia

. 469 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Noturno

. ST

. Poema Infinito (482): Res...

. No Barroso

. No Louvre

. 468 - Pérolas e Diamantes...

. AB

. VS3

. VS2

. Poema Infinito (481): Que...

. VS

. CL

. 467 - Pérolas e Diamantes...

. Pisões

. Misarela

. Olhares

. Poema Infinito (480): As ...

. Na Abobeleira

. Barroso

. 466 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Alturas d...

. Em Coimbra

. No Louvre

. Poema Infinito (479): Ao ...

. No Louvre

. No Louvre

. 465 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. JVF

. Interiores

. Poema Infinito (478): O V...

. ST

. No Louvre

. 464 - Pérolas e Diamantes...

. No Porto

. Em Alhariz

. Em Alhariz

. Poema Infinito (477): Tox...

. Em Alhariz

. Em Alhariz

. 463 - Pérolas e Diamantes...

. Amizade

. Na feira

. Interiores

. Poema Infinito (476): Via...

. ST

. Expressões

.arquivos

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar