Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

O Homem Sem Memória

 

35 – Quando o José saiu para a rua, ainda a escuridão teimava em demorar-se mais um pouco antes de o dia nascer. Fazia um frio de rachar. Tinha nevado durante a noite. Pouco, mas daquela neve parecida com farinha que se entranha em tudo. E por cima da neve tinha geado. Quando os primeiros raios de sol iluminaram os montes, os caminhos, as telhas e o colmo das casas da Portela, José sentiu-se mais reconfortado. Encolhido dentro da samarra, bufava nas mãos e caminhava a modinho. Os seus olhos ainda com remelas, pois apenas arranjou coragem para lavar a cara à maneira dos gatos, patenteavam alguma dificuldade em manter-se abertos devido à aragem fria que fazia com que chorasse mesmo sem vontade. Dona Rosa tinha deixado o Virtudes a tomar conta da rapaziada e também ali ia, debaixo do seu sofrido xaile, como quem vai para um funeral. O guarda Ferreira, embrulhado no capote, caminhava resoluto enquanto fumava tão sofregamente o seu primeiro cigarro do dia como se fosse um náufrago depois de vir à tona da água.

O corpo do José ainda lhe doía por causa da imobilidade provocada pelo peso do liteiro. Porque o frio apertava nessas noites de neve e geada, a Dona Rosa estendia por cima dos vários cobertores de lã uma manta de farrapos que pouco aquecia mas que tinha o condão de imobilizar o seu filho mais velho debaixo do enorme peso. O corpo de frango de aviário do José sentia-o como se de uma armadura de ferro se tratasse. A princípio ainda se queixou: “Mãe, não me ponhas esse peso de morte em cima de mim, pois eu não me consigo mexer, nem que queira”. Ao que ela respondeu com maus modos: “É preferível não te mexeres do que acordares de manhã morto e teso com o frio”. Ao que ele respondeu: “Mãe, se morrer durante a noite não posso acordar de manhã”. Ao que ela retorquiu: “Não te faças de engraçado comigo se não levas duas lambadas”. Ao que o seu pai, já meio ébrio devido ao vinho com mel aquecido que ia beberricando na pota, que agora estagiava junto ao borralho, objectou: “Foda-se Rosa, deixa o teu filho em paz. Com o peso do liteiro, o garoto é capaz de não morrer de frio mas sim abafado por esse manto do demónio”. Ao que ela retorquiu: “Cala-te bêbado, ainda não te chega de vinho? O vinho e o cigarro hão-de levar-te à cova bem mais cedo do que o que tu pensas”. E ele: “Antes morto que ter de te aturar. Sabes que mais, vai-te foder”. E calou-se. José começou a chorar devagarinho.

Não contente com o desaguisado que protagonizou, a Dona Rosa virou-se para o filho mais velho e bolçou: “Assim também não te pões a mexer na gaita. Andas magro como um cão. Tão novo e tão punheteiro. Sais ao teu pai. Lá fora fode qualquer puta, aqui em casa só bebe e fuma. E a mulher que vá para o caralho. O pai é um putanheiro e o filho é um punheteiro. Só me apetece ir para o monte gritar”. E o guarda Ferreira: “És uma loba esfaimada com o cio. Vai, vai e não voltes”. E calou-se. José continuou a chorar devagar… devagarinho.

José tinha começado a masturbar-se muito recentemente por causa dos colegas. Todos juntos eram uns autênticos animais selvagens. Reproduziam os comportamentos uns dos outros como se fossem macacos. Se um cuspia os outros cuspiam também, se um dizia uma asneira das grossas os outros repetiam-na em coro e riam-se como o tolo de Padornelos, se um mijava de cima do muro em frente das velhas da vila, os outros empoleiravam-se a seu lado e urinavam para ver quem mandava o seu jacto mais longe. Se um puxava do seu envergonhado pénis e começava a tocá-lo com cadência, todos os outros abriam a braguilha e deitavam os seus pífaros de barro branco de fora e punham-se a esfregá-los com tanta força como se os quisessem esfolar. Muitos puxavam tanto a pele que a glande se deformava. Ali não havia dor, apenas uma disputa para ver quem conseguia ser mais arrojado no momento da erecção. E elas ainda eram todas muito incipientes para produzirem algo de que se pudessem vangloriar. Ainda faltava muito para uma erecção como a de um burro, que era o que todos almejavam. Estavam mesmo longe da proeza do macaco da Dona Aninhas do Castelo que, deixado com rédea larga, sodomizou e estrangulou todas as galinhas que encontrou no terreiro em frente da casa da dona.

Os mais arrojados metiam o sexo ainda virgem de fêmea nos buracos dos muros ou nos orifícios das árvores ou nas frinchas das portas e punham-se a fornicá-las com os movimentos certos. Alguns tiveram mesmo de tratar os pífaros com sulfamidas e mercúrio. E gemiam muito quando se sentavam nos bancos da escola. Os mais sofridos eram olhados como os autênticos borrões da vila. Muitos deles atreveram-se mesmo a reutilizar os preservativos do namorado da professora Rosalina. Mas acabaram por desistir, ainda lhes sobrava muito espaço para preencher.

Por causa do frio, não se sentiam os cheiros da bosta e do suor dos animais. Apenas se conseguia cheirar o forte odor a aguardente e a tabaco que o guarda Ferreira exalava. Iluminada pelo sol nascente, a Portela parecia um postal de boas-festas, com as casas humildes cobertas de neve e os beirais a reluzirem os pingentes de gelo. No silêncio da manhã apenas eram audíveis os passos dos Ferreiras.

No meio do silêncio da madrugada, a Dona Rosa começou a chorar lembrando-se que logo de manhãzinha, quando foi acomodar os animais, deu com a galinha velha morta a um canto, o presente que a madrinha de um dos filhos lhe oferecera na altura do baptizado. “A Ruiva era uma boa poedeira e criava cada ninhada de franguinhos de fazer inveja à mais pintada”, balbuciou a Dona Rosa entre baba e ranho. “Eu bem te disse para a cozermos quando o José esteve doente”, lembrou o guarda Ferreira. “Eu era lá capaz de comer a Ruiva”, indignou-se a Dona Rosa.

Quando chegaram a casa do cabo Aníbal, já os potes ferviam e cá fora no terreiro ardia uma valente fogueira de rachas de carvalho negral. Sentados em dois bancos corridos, seis homens esperavam ordens do dono da casa para atacar o porco, que era animal para pesar mais de duzentos quilos. O suíno, pressentindo a presença de tantos humanos, encontrava-se na corte mais silencioso do que o mudo de Padornelos.

A Dona Emília, a esposa do cabo Aníbal, vendo a Dona Rosa tão fungosa, perguntou: “Ó mulher quem é que te morreu?” Ao que ela respondeu: “Foi a Ruiva, a galinha velha que a madrinha do meu Eugénio lhe deu no dia do baptizado. E eu tinha-lhe tanto carinho. Era como se fosse da família.” “Pára lá com a choradeira, mulher. Antes a tivesses comido.” “Não podia, tinha-lhe muito carinho”, repetiu a Dona Rosa. Para concluir: “Eu respeito muito os meus. Para mim a família é sagrada.”


publicado por João Madureira às 09:00
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