Segunda-feira, 6 de Dezembro de 2010

A estúpida da economia e o sentido da vida

 

Todos os apelos mediáticos vão no sentido de pensar e repensar a economia. Na década de 1990, o ex-presidente democrata Bill Clinton popularizou a frase "É a economia, estúpido", para resumir numa frase qual seria o eixo de sua campanha eleitoral para derrotar Bush, pai, e depois para assegurar a sua reeleição. E isto fazia sentido.

 

Agora, esta mesma frase poderia responder perfeitamente à pergunta de porque perdeu Obama. Foi, em grande medida, o resultado da irritação de um sector do povo norte-americano frente a um presidente que prometeu "mudar radicalmente a política”, mas que rapidamente se viu cercado pela realidade económica. E isto faz sentido.

 

Eu sei que é aí que reside a equação da nossa sobrevivência. Depois lembro-me das aulas de Física: energia, massa, velocidade da luz e penso que se as pessoas fossem do tamanho de átomos, a população da Terra cabia toda na cabeça de um alfinete. Afinal, qual o sentido da vida?

 

Por que estamos aqui, o que é isto tudo? Os Monty Python tentaram, sem grande êxito comercial e filosófico, responder à questão mais importante da Humanidade: Qual é o sentido da vida? E fizeram-no explorando as várias fases da vida, começando com o nascimento: um médico parece mais interessado no seu equipamento do que em entregar o bebé ao cuidado da mãe; um casal católico apostólico e romano tem uma caterva de filhos, porque "cada esperma é sagrado"; na época essencial da aprendizagem e da vida, jovens frequentam uma igreja católica e assistem a aulas de educação sexual; também se fala da guerra onde um oficial parte para o ataque, mas é frustrado por seus subordinados que pretendem comemorar o seu aniversário; o director de uma campanha militar em África perde uma perna presumivelmente devido à mordidela de um tigre supostamente africano, etc.

 

E agora algo completamente diferente. Depois do sentido vem a aprendizagem. E outra questão se nos levanta. Será que a Humanidade aprende com a História? Parece que devia, mas não aprende. Apesar de todo o progresso tecnológico e científico não se pode falar de progresso humano. No essencial, o Homem é o mesmo que era há milhares de anos. É necessário percebermos que atrás de nós há séculos e séculos de experiência humana que é essencial para a percepção daquilo que somos, daquilo que nos cai em cima e temos, por muito que nos custe, de digerir e tentar responder. O que pretendo dizer é que a vida não tem um grande sentido, apenas faz sentido vista em pequenas parcelas.

 

É tempo de nos deixarmos de ilusões, pois o mundo será sempre o mesmo, quer a hegemonia seja protagonizada pelos americanos, pelos europeus ou pelos chineses. Com a globalização ou sem ela, com a paz ou com a guerra, com as revoluções ou as contra revoluções, com as reformas ou os governos estáveis, teremos sempre de contar com o sofrimento, a desigualdade social, a luta pela vida e a morte. Este é um sentido da vida. Será?

 

Será que faz sentido a proibição, ainda que agora ligeiramente mitigada, por parte do Papa e da Igreja católica do uso do preservativo? Será que faz sentido a fé? Se Deus criou isto tudo porque razão não se opõe à desgraça? Porque é que não corrige o mal terrível que é o de fazer sofrer as crianças? Como é que faz sofrer as pessoas que não possuem defesa nenhuma? Como permitiu os campos de concentração nazis e os gulages comunistas? Porque razão Deus não intervém para acabar com essas coisas?

 

Os católicos dizem que Deus se revela através dos símbolos. Os ateus dizem que linguagem simbólica não tem importância. O que conta é a realidade física e objectiva. E não se sai disto. Eu sei que faz parte da cultura das pessoas perceber que a visão do mundo não é só uma visão racional, nem nos podemos restringir apenas a uma interpretação lógica. Eu sei que quem escreveu a Bíblia o fez recorrendo sobretudo aos símbolos. Essa era a expressão primitiva dos povos e da sua visão do mundo. Mas quando a mulher de Lot olha para trás e fica transformada em estátua de sal, o que é que isso quer significar para o povo de Deus? É simbólico em relação a quê? Ao pecado? À sodomia? À fornicação? À anarquia? À desobediência?

 

Também os republicanos portugueses fizeram das bigodaças o seu símbolo identitário e esculpiram o busto da República em forma de uma bonita mulher e deu naquilo que deu. Os símbolos são úteis ao espírito mas não resolvem a trivialidade da vida humana. Se a vida se pudesse modificar através dos símbolos, vivíamos no melhor dos mundos.

 

A vida e o seu sentido são dois caminhos que se bifurcam. Mas voltemos de novo à economia. Todos sabemos que o Capital elimina as subtis particularidades de uma cultura. O investimento estrangeiro, os mercados globais, as aquisições feitas pelos grandes grupos económicos, o fluxo da informação através dos meios de comunicação transnacionais, a influência atenuadora do dinheiro electrónico e do sexo ciberespacial, o dinheiro e o sexo virtuais e a uniformidade dos desejos dos consumidores, tudo isto leva a que as pessoas queiram as mesmas coisas, pois são induzidas a um mesmo leque de escolhas. E tudo isto porque não faz nenhum sentido, faz todo o sentido do mundo.

 

Por esse mundo fora os sósias de Marx, Lenine, Estaline, Fidel Castro, Trotsky, Mao, Álvaro Cunhal são presentemente stript-teasers nos clubes nocturnos da globalização política.

 

Todos os travestis fazem os clipes da Gloria Gaynor ou da Amália. O Benfica sonha eternamente com um sósia do Eusébio. E o país procura eternamente um ditador para as suas finanças públicas. É isto a vida. É isto a vida?

 

Será que ela fez sentido?

 

O escritor Onésimo Teotónio Almeida descobriu numa gasolineira em Vila da Povoação, em São Miguel, Ângelo Bento Melo que antes ou depois do horário de trabalho mantém, aos 56 anos, o hábito de ler. E já leu Victor Hugo, Jorge Luis Borges, Ferreira de Castro, Eça, Guimarães Rosa, Selma Lagerlöf, Saramago, García Márques, Faulkner, etc. Isto apesar de ter feito apenas o ciclo preparatório. Isto sim faz sentido. Mas não é a vida. O senhor Ângelo diz que “um livro é um tesouro que enriquece a mente, é melhor que a jóia que sua dama adorna é a grande voz do pensamento, e dá-nos conselhos a toda a hora”.  

 

Está visto que a vida não tem lá grande sentido, mas o senhor Ângelo tem. Tem todo o sentido do mundo. A vida é um livro que se compra caro e que depois de lido se enfia na prateleira para fazer volume. E que bonito que fica numa graciosa prateleira ao pé dos outros. É por causa dos livros que aprendemos a ler e a escrever e a pensar. São os livros que nos ensinam o sentido da vida. A vida pode não ter sentido mas os livros têm sentido. A vida tem o sentido das gravuras de Foz de Côa. Tem o sentido do avião a jacto. A vida tem o sentido do bom gosto, da nudez, da preguiça, da linguiça, da rima, da estética, da ética, da teoria política. A vida tem o sentido do Natal, do futebol e dos frangos de churrasco, tem o sentido da tabuada, tem o sentido do casamento, sobretudo entre os homossexuais, tem o sentido do Alberto João Jardim, tem o sentido das perversidades. A vida tem o sentido da morte.

 

 

PS – Karl Lagerfeld apresentou a sua colecção Chanel. Apresentou modelos envergando minivestidos de tweed com aplicações de pele e botas do espaço, chapinhando na água em torno de um icebergue gigante que a Chanel mandou vir da Suécia. Os ecologistas acusaram-no de ser insensível às questões ambientais. Ele contrapôs que o aquecimento global pode ser um disparate.

 

Não sei se a ecologia faz sentido, se as questões ambientais fazem grande sentido, se Karl faz muito sentido, mas sei que a moda faz sentido. Nisso é como a vida.


publicado por João Madureira às 09:00
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