Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

O Poema Infinito (25): este é o tempo…

 

 

O tempo da árvore genealógica possui uma aridez fecunda. É uma música longa iluminada pelo sonho da terra. Há nos seus braços uma glória humilde onde os lábios do sonho negam as fendas das muralhas. É o tempo do destino. A terra abraça as ervas e as fontes acumulam os raios de sol que permitem a claridade da água. Os homens dormem nos olhos das mulheres. Chega o silêncio branco da nudez e as casas engolem os sonhos e as pessoas ardem nos quartos e os rapazes e as raparigas beijam as palavras enamoradas. O desejo ergue-se repetido pelos corpos disfarçados de circunstância. E os sonhos repetidos repetem-se de novo. É claro o tempo ausente. É clara a mágoa dos caminhos e o silêncio dos pássaros. É clara a paciência dos teoremas e a vida sacrificada dos poetas. São claros os limites do tempo e a lucidez dos murmúrios. Uma multidão de pássaros atravessa o céu azul na direcção do templo das palavras. Os corpos em sílabas das crianças sofrem as palavras nuas da desilusão. Mas as paisagens continuam a existir rigorosamente renovadas pelos olhares dos pintores. Como se fossem, sobretudo, um fino pó de silêncio. O delírio nasce na claridade aberta da música. E a música começa na razão simples da melodia. É tranquila a invenção dos corpos. A hora vagarosa do entardecer dilata o brilho dos teus olhos. O tempo dos sonhos finge um destino. O tempo presente imagina a razão. O tempo das palavras tem agora o sabor aborrecido da repetição. Este é o tempo de viver até ao fim a nitidez das mãos divididas. Este é o tempo de acreditar em coisa nenhuma. Este é o tempo fecundo da irracionalidade. Há nos olhos dos homens o tempo escuro da desilusão. É o tempo da insónia. Este é o tempo das festas tristes e das carícias atrapalhadas e dos corpos entusiasmados pelo tédio. Este é o tempo da fantasia das promessas cumpridas. Este é o tempo da razão do dinheiro. Este é o tempo da canção das armas. Este é o tempo dos amos silenciosos. Este é o tempo da insónia. Este é o tempo duro dos sorrisos devastados. Este é o tempo fecundo das desilusões proclamadas. Este é o tempo do remorso e das esmolas e da sopa dos pobres. Este é o tempo da febre das cidades. Este é o tempo presente das circunstâncias ferozes e dos versos disfarçados e dos juramentos falsos e dos destinos fingidos e dos corpos cansados e dos homens solitários e das mulheres violentadas. Este é o tempo dos amigos forçados e das armas silenciosas. Este é o tempo dos lugares comuns. Este é o tempo de começar de novo.


publicado por João Madureira às 09:00
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