Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2010

A conversa

 

E lá estávamos os três a olhar a praça com olhos piscos por causa do sol e por causa da saudade. Eu, o meu amigo R. e o meu outro amigo, o L. O L. é muito dado à política e ao futebol. O R. é muito dado ao estudo. E eu não sou dado a nada. Cada um é para o que nasce. Eu não sou dado a nada mas valorizo tudo. E valorizo sobretudo os meus amigos. Para mim os amigos são tudo. Ou quase.

 

O R. ainda não se conseguiu conformar com o facto de terem substituído as Freiras por uma praça chã. Sem alma e sem fulgor. O meu amigo L. já se conseguiu conformar com o facto mas continua a não entender as causas. Eu, por conseguinte, acho que o progresso é uma coisa imparável. Mas, confesso, sinto ainda muito a falta do Jardim das Freiras.

 

O R. olhou lá bem para o fundo, na direcção do tanque e do repuxo, e disse baixinho: “Ando a tirar um curso pela internet.” “Andas?”, perguntei eu a fingir interesse e surpresa. O L. abençoou retoricamente a confissão e aplaudiu a iniciativa. E disse ainda que a internet é uma coisa boa. Eu também concordei para logo semi-discordar, referindo que também ela tem o seu lado mau, pois vicia e torna os seres humanos mais autistas. O R. olhou para mim com os seus olhinhos de recém-reformado e disse que não consegue estar sem ocupação. Que tem de se entreter com alguma coisa. Os seus cinquenta e seis anos transmitem-lhe ainda muita inquietação. E a nós intensa impressão. Podemos dizer que reformar-se com esta idade é uma espécie de prémio da lotaria. Nós que só vamos conseguir, quando muito, reformar-nos aos sessenta e cinco, roemo-nos de inveja. Mas sorrimos para disfarçar.

 

O R. olhou para mim e disse que anda a estudar as várias espécies de águas engarrafadas. Ele que é um excelente apreciador de vinhos. Eu olhei para ele e depois olhei para o L., seguidamente olhei para a praça lá ao fundo e para o tanque e para o repuxo. E olhei novamente para o R. Ele olhou para o L. e novamente para mim e depois para o repuxo e seguidamente para o tanque de água da praça. E disse olhando para a fachada da Biblioteca Municipal: “Eu aprecio muito a água do Luso. Mas agora apenas a compro em garrafas de vidro.” E olhou para a porta do café Sport onde acabava de entrar um ex-autarca do PS. Eu olhei para o quiosque onde naquele momento um ex-autarca do PSD comprava o DN. E perguntei: “E porquê?” E o L.: “E porquê o quê?” E o R.: “Deves prestar atenção à conversa se queres conversar.”Eu concordei com a cabeça. O L. concordou com a cabeça. Então o R. explicou: “A água tem tendência a oxidar nas garrafas de plástico.”Eu concordei e dei uma achega: “A água mineral quer-se fresca, sem mau gosto.” E olhei novamente lá para fora, na direcção da esquina do Lopes. O L. olhou para o R. e o R. olhou para mim que nesse mesmo instante tentava focar a imagem de uma senhora que me pareceu uma antiga colega de Liceu. O L. olhando na direcção dos Correios desabafou: “Eu não percebo realmente a diferença entre a água de nascente e a água natural. Se é que existe alguma diferença.” Eu olhando para o repuxo, depois para o L. e ainda novamente para a esquina do Lopes e outra vez para o tanque lá ao fundo disse: “Alguma diferença deve haver. Não é verdade R.?” E o meu amigo R. olhando para um menino que naquele momento andava de bicicleta no meio da praça, acompanhado pelo pai, e olhando de novo para o tanque e para o repuxo explicou: “A água natural é qualquer água de origem subterrânea. Ou seja, cujo conteúdo mineral não foi alterado, embora a água possa ter sido desinfectada ou filtrada.” “Muito interessante” diz desinteressadamente o L. E adianta distraído, olhando para as pernas bem torneadas de uma senhora de meia-idade que beberrica um café enquanto come uma nata: “Sabeis que o Pedro Passos Coelho entrou no PSD através de um campeonato de cartas organizado pelos laranjinhas no Verão?” “Ai sim?”, digo eu olhando para o quiosque onde a senhora se entretém a olhar para a praça na direcção dos Correios. “Sim”, diz o L. tentado puxar a conversa para a política enquanto olha para a esquina do Lopes. Eu olho para o repuxo e depois para o tanque e ainda mais numa vez para a fachada da Biblioteca Municipal e outra vez para o R., enquanto ele olha para o L. e depois novamente para mim e diz: “Na água de nascente os minerais podem ser acrescentados ou retirados e, geralmente, não é tratada. A maioria da água vendida em Portugal é de nascente. A diferença entre a água destilada e a água purificada é…”, hesita um pouco que é o suficiente para o L. olhar para mim e puxar a conversa para a política: “A crise vai matar o Sócrates. Os ratos do PS já começaram a abandonar o barco, pois…” hesita um momento enquanto olha para a esquina do Lopes e de seguida para as pernas da senhora de meia-idade. Eu aproveito para dizer alguma coisa de cultural, enquanto olho para o R., depois para o L., novamente para o repuxo e posteriormente para o tanque e novamente para o quiosque: “O Thomas Pynchon acaba de…” e hesito um momento porque vejo novamente a minha provável colega de Liceu a atravessar a praça em direcção à Lapa, facto logo aproveitado para o L. tornar a puxar a conversa para o seu lado: “E esse em que equipa joga?” Nesse momento o R. olhando com ar de caso para mim e depois para o repuxo, novamente para mim e novamente para o tanque, diz: “Na água destilada ou purificada a maior parte dos minerais foi retirada. A água foi fervida e o vapor condensado. É água pura.” O L. olha na minha direcção, depois na direcção das pernas da senhora de meia-idade, ainda depois na direcção do quiosque onde agora um aluno do Liceu compra a Blitz, e diz: “Tenho pena da juventude porque não tem grande futuro. Portugal é um país de…” “A água destilada tem um gosto insípido…”, diz o R. olhando pata mim. “Como o PSD…” diz o L. olhando para as pernas da senhora de meia-idade… “E geralmente não é para beber.” Conclui o R. olhando na direcção da esquina do Lopes. Então o L. olhando para a praça e seguidamente para as pernas da senhora de meia-idade, adianta. “O Porto vai ganhar as próximas eleições legislativas….” Eu, olhando para o L., mas não olhando para as pernas da senhora de meia-idade corrijo: “Queres dizer o PSD, não é verdade?” Ele deixando de olhar para as pernas da senhora de meia-idade corrige: “Sim, eu queria dizer o PSD…” “E a água mineral?”, pergunto eu na direcção do R. e depois olhando para a esquina do Lopes onde ninguém vai a passar. E ele olhando para o tanque e depois para o repuxo: “A água mineral não contém substâncias químicas, nem sais, nem cafeína…” “E o PS?”, pergunta o L. olhando para as pernas da senhora de meia-idade que olha para o meu amigo R. e ele novamente para mim. “A água gasosa tem picos por causa do dióxido de carbono…”, depois hesita e eu prontifico-me a continuar: “Acaba de sair um novo livro de Saul Bellow…”, mas o L. não me deixa acabar e, olhando para o sítio onde a senhora de meia-idade tinha exibido as pernas, diz: “O Sousa Tavares já escreveu outro livro?” O R., olhando para o quiosque onde uma senhora de idade compra uma revista de croché, explica: “Quem gosta de água gasosa deve comprar sempre a que é naturalmente gasosa, porque só essa é que possui o dióxido de carbono que está na origem. É essa a grande diferença entre a das Pedras e a de Carvalhelhos.” Eu olho de novo para o R. e de seguida para o menino que continua a andar de bicicleta no meio da praça debaixo do olhar atento do pai  e pergunto: “Qual é a água que se deve beber depois de fazer exercício?” O L. olhando para mim como se não me visse diz: “O PS vai ter de mudar de treinador, senão não se safa.” Eu olhando para o tanque e depois para o repuxo corrijo: “Queres tu dizer, o Benfica…” E, ele, olhando para a senhora de meia-idade que agora sobe a Rua de Santo António diz: “Umas boas pernas são meio caminho andado para…” “Ganhar as eleições o P…”, tento dizer eu mas sou logo interrompendo pelo R. que olhando para a fachada da Biblioteca Municipal como quem olha para o infinito, diz: “Mais do que a marca, o que deves procurar é que ela esteja bem fria.” “O quê?”, pergunta o L. olhando para as pernas bem esculpidas de uma jovem que se sentou numa mesa mesmo à nossa frente. “Porque é absorvida mais rapidamente do que se estiver à temperatura ambiente”, responde o R. olhando para o L. que olha para as pernas da jovem da saia curta. “Mas não achas que a água é o melhor para repor os fluidos, já que entra na corrente sanguínea mais rapidamente do que qualquer outro líquido?”, pergunto eu olhando para o R. que olha para o L. que continua a olhar para as pernas da jovem de saia curta e perna longa.  “Sim, o Cavaco Silva vai ganhar o campeonato…” diz inconclusivamente o L. olhando para o busto da jovem que abre e fechas as pernas enquanto sopra na meia de leite que se prepara para beber. Entretanto toca o meu telemóvel avisando-me que está na hora de ir fazer os meus quinze quilómetros de bicicleta sem sair do lugar. Saio dali olhando para o espelho que me transmite uma imagem já um pouco gasta. O R. olha para o L. e ele olha para a jovem que olha embevecida para o ecrã do seu computador. O namorado da jovem pousa suavemente a sua mão na coxa da namorada enquanto bebe uma Água da Pedras fresca com limão e olha distraidamente para o L. que olha de novo para o repuxo e para o tanque, enquanto reza baixinho: “Ai que saudades tenho das antigas Freiras e do meu tempo de estudante.”

 

 

PS – Se vai comprar uma toillete para o Ano Novo sugerimos-lhe uma camisa Mirto, que já as fazem desde 1956, pois eles seleccionam as melhores telas e dão mais de oitenta passos para confeccionar uma grande camisa. A gravata deve ser da Dustin. Como está frio aconselhamos também um gorro de bombazina Failsworth, um cachecol de lã Merino e Lambswool da Johnston’s, e um pack de 3 garrfas de whiskys Talisker. Para dar um toque ainda mais british, sugerimos camisolas de lã Lambswool Alain Paine e uns sapatos Berwick, Emidio Tucci ou George’s. Sugerimos ainda um casaco de pele Emidio Tucci. E, já agora, deve optar por uma eau de toilette 100ml e emulsion après-rasage da Terre D’ermès.

 

Se vai oferecer prendas, seja original e decida-se pelo papel higiénico Renova (The black toilet paper company) que é um papel às cores (nós sugerimos o vermelho para dar com a quadra). É muito macio, elegante, alegre e pode ser utilizado em milhentas coisas. Pode também decidir-se pelo livro de José Saramago Nas Suas Palavras, pelo berbequim Bosh, que é um óptimo saca-rolhas, ou então pela Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen.


publicado por João Madureira às 09:00
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1 comentário:
De Renova MKT a 21 de Dezembro de 2010 às 10:52
Obrigado pela sugestão relativa aos produtos Renova.
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