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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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15
Dez10

O Poema Infinito (26): o segredo do tempo

João Madureira

 

Esta é a minha oferta iluminada: o nada. Esta é a minha invenção: a espada. Este é o meu interior: o fogo. Este é o meu corpo: uma estrela de sal. Esta é a minha verdade: a palavra. Por isso eu subo espantado por cada virgindade perdia. Por isso eu ardo em cada taça de vinho. Por isso sorrio em cada cálice de angústia. Por isso me custa dormir em cada sinal de glória. Por isso tenho vertigens em cada deus nas alturas. Por isso cada noite atravessa o meu sangue cantando hinos de glória. Toda a palavra renascida é um perdão. Todos os meus beijos são a loucura da procura dos teus. Deus é disso testemunha invisível. Pela terra adiante o perdão redentor sopra a alucinação da sua insignificância. A morte é o seu sinal glorificado. As tecedeiras beijam as mãos das avós e atravessam as manhãs como flores líricas. Talvez a intimidade das palavras seja vã, mas todos os poemas revelam coisas. Toda a carne é complicada. O seu desejo quente sobe por nós como uma vertigem poderosa. Somos a inspiração fodida dos anjos. Lúcifer morre no seu sexo negro. Deus morre no seu sexo esdrúxulo. Sinto que enlouqueço nos meses frios como se fosse o espinho precário de uma rosa maldita. Milagroso é o tempo secreto do mundo.

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