Sexta-feira, 24 de Dezembro de 2010

O Homem Sem Memória

 

43 – Mal chegou a casa, ainda vacilante nos seus passos frouxos, já depois de deixar os seus amigos no café a beber ainda o último copo de vinho, ordenou olhando na direcção da mulher: “Arranja a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias.” “O quê?”, perguntou a Dona Rosa. “O quê?”, perguntou o José. “Já disse, prepara a mala do José porque na segunda-feira vai para a colónia de férias em Matosinhos.” “Mas...”, exclamou a Dona Rosa. “Mas...”, exclamou o José. “Não há mas nem meio mas”, avisou o guarda Ferreira, “como nunca mais foi à praia desde que viemos de Lisboa, vai agora antes de ingressar no seminário.” “Quem o inscreveu?”, perguntou a Dona Rosa. “Quem me inscreveu?”, perguntou o José. “Fui eu”, respondeu o guarda Ferreira com a autoridade necessária. “Afinal quem é que manda cá em casa?”, perguntou apreensivo o guarda Ferreira. O Leão ladrou no curral dando sinal de que se preparava mais uma batalha familiar. O Virtudes subiu as escadas para vir proteger as crianças. A Dona Rosa armou-se de varapau em riste e o José pegou no livro e foi para o quarto ler. Ou fazer que lia. Mas a guerra terminou ainda antes de começar. O guarda Ferreira serviu-se de vinho do garrafão, pegou numa linguiça, embrulhou-a numa folha de couve e colocou-a no meio das brasas. Um pouco a custo, assentou-se no escano. Depois deu um pontapé no gato e começou a falar sozinho. Entretanto a mulher tentou tirar nabos da púcara: “Quando foi que o inscreveste para a colónia de férias?” “Quando os meus colegas inscreveram os seus filhos.” “Mas não me disseste nada!” “Não te disse nada porque já sabia que ias dizer que não. Eu sei que o rapaz precisa de sol. Está magro como um cão.” “Vê lá como falas do teu filho. Mais magro estás tu. Também vais para a colónia de férias?” “Não me faças rir. Com estas flausinas da cor do leite ia ser um enchente de riso.” “Tu de calções de banho e eu de biquíni íamos ser o casal mais vistoso da praia.” “Lá isso íamos. De tão brancos ainda ofuscávamos o sol.” E riram-se os dois. Até o José se riu lá no quarto. “Não te rias dos teus pais que é feio”, gracejou o guarda Ferreira. Então a Dona Rosa começou a cantar a canção que agora passava muito na rádio: “Já arranjei muito bem / Tudo quanto convém / P'ra praia levar. / O pente, o espelho, o batom…” Ouvindo a dona a cantar, o Leão atreveu-se a subir as escadas e foi para ao pé dela pôr-se a ganir. Logo de seguida subiu o Virtudes e a rapaziada. Vendo que o ambiente se tinha composto, o José pousou o livro e veio para o escano. O pai deu-lhe um pouco da linguiça e disse-lhe para beber um golo de vinho da sua pichorra. Ele bebeu, mas a custo. Afinal já se estava a transformar num homem. Já fumava, já pinava, só lhe faltava mesmo começar a beber para ser um homem. O seu irmão João começou a rir-se naquele seu encantador trinado de menino feliz e riu tanto que deu um peido. Todos começaram a rir como tolos. E nunca mais paravam. E quanto mais se riam, mais vontade tinham de continuar a rir. Então o José, como quase sempre fazia, pegou no seu irmão João e começou a balançá-lo de um lado para o outro e a fazer-lhe cócegas na barriga com os lábios e o ar que expelia pela boca. Então o João, esgotado, no momento em que o José abria a boca para respirar depois de mais uma sopradela na barriga do irmão, mijou-lhe em cima com a naturalidade das crianças. Nesse momento o riso colectivo atingiu o clímax. Feliz, o Virtudes levantou-se de onde estava sentado, pegou no menino ao colo e deu-lhe o biberão de leite. A Dona Rosa, mais corada que um pimento, e como sabe que momentos destes não abundam na vida de um casal, lembrou aos meninos que estava na hora da deita. O José, ainda com o cabelo húmido depois de se ter ido lavar, juntou-se ao Virtudes e ambos ajudaram os irmãos a despir-se e a vestir as ceroulas e a camisa de dormir e contaram mais uma vez a meias a Lenda da Maria Mantela, história que tinha o apreciado dom de os acalmar. Depois adormeceram. O Virtudes ainda se entreteve a beber um copo e finalmente também foi embora. O guarda Ferreira, a inseparável pichorra, mais a Dona Rosa, continuaram a conversar noite dentro. O José, na cama, não conseguia dormir. Chegou mesmo a contar e recontar os jogadores que tinha repetidos e não conseguia trocar. Mas o sono não chegava. Ouviu o pai a bater a porta da rua e a dar duas voltas à chave na fechadura. Depois a Dona Rosa e o guarda Ferreira foram para a cama. De seguida ouviu qualquer coisa como “chega para cá o rabiosque que eu aqueço-to…” a que se seguiu “não sejas estouvado… sim… umm… sim… shh… que o José tem ouvidos de fuinha… anda lá Ferreira… não se me endireita… shh… sim… vá lá homem… queres que te… sim… shh… ummm… anda lá… não se em endireita… vá lá que eu ajudo… abre mais um pouco as… shh… umm… força… agora… shh… eu faço-te mais umas festinhas… não consigo… é do ciga… caralho…


publicado por João Madureira às 08:55
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 14 seguidores

.pesquisar

 

.Janeiro 2020

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9


19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. São Sebastião - Couto Dor...

. São Sebastião - Alturas

. Poema Infinito (491): O v...

. Feira do Fumeiro - Botica...

. No Barroso

. 476 - Pérolas e Diamantes...

. No Louvre

. Paris

. Paris

. Poema Infinito (490): Os ...

. Notre-Dame de Paris - Int...

. Notre-Dame de Paris

. Louvre

. 475 - Pérolas e Diamantes...

. Montalegre

. Poses

. Barroso

. Poema Infinito (489): O p...

. Barroso

. Chaves

. Milagres lusitanos

. Barroso

. Barroso

. Barroso

. Poema Infinito (488): Luz...

. Barroso

. Barroso

. 474 - Pérolas e Diamantes...

. Na matança

. Na conversa

. Olhares

. Poema Infinito (487): As ...

. Na aldeia

. Na conversa

. 473 - Pérolas e Diamantes...

. No Louvre

. No Louvre

. Em Paris

. Poema Infinito (486): Dis...

. Em Paris

. Em Paris

. 472 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos Santos

. ST

. Na cozinha

. Poema Infinito (485): Sed...

. Olhares

. Vacas e balizas

. 471 - Pérolas e Diamantes...

. Em Amarante - Cultura que...

.arquivos

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar