Caminhar ao frio
Lá fora chove muito. Para o lado das montanhas as nuvens carregam o céu. Para o lado da cidade os carros enchem a estrada. E eu, em frente do computador, tento alinhavar umas palavras que me libertem por alguns momentos desta inquietação permanente de escrever. Enquanto escrevo não penso na escrita. Penso noutras coisas.
De repente, o país encheu-se de pobres. E não foi só o país. As televisões e os jornais estão carregadinhos deles. São uma das setes pragas do Egipto. E quando o povo passa fome temos de tomar atenção aos sinais. Por exemplo, nas aldeias os chupões deitam mais fumo e nas cidades as chaminés expelem menos. Outro sinal inquietante é a intervenção do clero. Esperem aí, não é o clero que é inquietante, é a sua intervenção. É preciso avisar desde já que sou republicano mas não sou anti-clerical. Nem uso bigode. Por isso vejam nas minhas palavras apenas um sinal de alerta, não uma diatribe contra os homens vestidos de negro.
Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa e responsável pela Pastoral Social da Igreja (ó diabo!) deu uma entrevista ao Expresso onde afirma, entre outras coisas, que “não podemos ficar sentadinhos no sofá”. Bem, senhor bispo, com este tempo frio e invernoso o seu apelo é já por si o cabo dos trabalhos. E penso que se nos sentarmos num banco, no escano, ou mesmo numa cadeira, a situação política e social portuguesa não se altera substancialmente. Mas o senhor bispo lá deve saber do que fala. E mesmo se mudasse apenas podia ser para pior. Além disso, que outra coisa podem fazer os cerca de 500 mil desempregados? Caminhar ao frio, apanhar chuva, molhar as botas, constipar-se? Deixe-os estar descansados em casa. Assim sempre poupam as forças, não comem tanto, não precisam de se vestir para sair à rua, podem fazer a sua vidinha apenas envergando o fato de treino, podem ver os programas televisivos matinais na caminha, enquanto os filhos estão na escola, podem ver a telenovela da tarde na cadeira de encosto, enquanto os filhos estão na escola, e podem ver o filme da noite sentados no sofá, enquanto os seus filhos terminam os trabalhos da escola antes de irem para a cama.
O senhor bispo disse outra coisa inquietante: “Estamos a brincar com o fogo se não tomarmos medidas para ajudar instituições próximas das pessoas a equilibrar as suas vidas”. Eu brincar com o fogo não brinco. O senhor bispo não sei. Eu não o faço porque não possuo lareira. Aqueço-me com um aquecedor daqueles que arremessam ar quente quando os ligamos. Antigamente aquecia-me com um aquecedor, ou dois, a gás. Mas tive que me desfazer deles porque acabavam sempre por criar uma atmosfera pesada dentro de casa. E as sucessivas crises nacionais, que sempre me acompanharam ao longo da vida, foram permanentemente um factor de pressão sobre a saúde e o orçamento familiar. Além disso a minha avó, e mais tarde a minha mãe, sempre me disseram que brincar com o fogo fazia com que eu mijasse na cama. Está claro que me abstinha de brincar com as brasas à lareira na presença delas, mas fazia-o às escondidas e, posso agora confessar ao senhor bispo, sem receio nenhum, que também é para isso que o senhor é aquilo que é, nunca mijei na cama. Ou melhor, mijei uma vez, quando inaugurei a minha puberdade e sonhei com as coxas da Sofia Loren depois de as vislumbrar num filme que vi no antigo Cine Teatro, ainda o senhor Zé Mota, o contínuo do Liceu, era vendedor de bilhetes e o senhor Zé Mário tomava conta do bar onde eu comprava no intervalo uma sandes de fiambre e um Sumol e a Dona Francília tomava conta do cinema. E olhe, senhor bispo auxiliar, esses também foram tempos de profunda crise e, se bem me lembro, havia bem mais pobreza, muitos menos carros, as calças dos rapazes eram cerzidas, não para estarem na moda mas porque não havia dinheiro para ter mais do que um ou dois pares, a maioria dos jovens não estudava, a maioria das mulheres não tinha emprego, grande parte dos homens eram agricultores pobres, não havia Serviço Nacional de Saúde, nem Segurança Social minimamente credível, nem subsídio de desemprego condigno, nem reformas universais, nem muitas outras coisas que agora existem e que a maioria das pessoas se habituou a usufruir sem se inteirar que é preciso trabalhar para criar riqueza, que o dinheiro não nasce nos montes como a erva, que a dignidade e a responsabilidade não são palavras vãs.
O senhor bispo disse ainda que, e passo a citá-lo, “que há pobres, há gente com fome, há gente aflita porque perdeu o emprego”. Pois há senhor bispo auxiliar, pois há. Mas sempre houve. E ainda lhe digo mais, ainda que me custe, sempre houve e haverá. E gente como senhor também, que pensa que só faz sentido um padre onde existe pobreza. Nesse aspecto, a Igreja é como o Partido Comunista, só medra na pobreza, só resplandece na miséria, só se transcende na desgraça. É a iconografia. Cristo era pobre. É o que por aí se diz. Existem historiadores que dão isso de barato. Mas se ele era pobre, não quer dizer que defendesse a pobreza. Ou que a achasse redentora. Mas tem de concordar comigo que o mito de um Cristo para ricos era coisa que só lembraria ao demónio. Mas, senhor bispo, desculpe-me a pergunta, considera que a Igreja de Roma, Roma e o Papa são sinónimos de pobreza? Diz-se por aí que o Estado devia desfazer-se da maior parte dos seus bens para prover à crise social que existe. Mas porque razão as instituições denominadas de solidariedade social pedem cada vez mais o apoio do Estado sem o qual, confessam, não têm capacidade de subsistir? Sabe senhor bispo, estou em crer que se a Igreja alienasse algum do seu património também podia auxiliar o Estado a tomar conta dos seus contribuintes. Então que dizer da opulência do Vaticano? O Papa, que é o símbolo universal da Igreja Católica, veste-se impregnado a ouro, transporta uma cruz de Cristo banhada a ouro, e usa um anel que é outro símbolo da sua opulência e do seu poder. Ele que é o representante de Cristo na Terra. E Cristo, entendamo-nos, é o símbolo terreno da pobreza, dos pobres de espírito, dos desalojados, das vítimas da guerra, das vítimas da desgraça e da doença.
O senhor bispo diz ainda que “temos na política mais gestores do que líderes”. Não sei se é verdade, mas sei, isso sim, que é verdade que há demasiados homens de cabeção e batina a imiscuir-se na política. Quando vêem que o poder espiritual se esvazia depois de avanços civilizacionais, passam à guerrilha política vestidos de cordeiros do Senhor. Ganhem juízo, comprem umas sandálias e agarrem num bastão e percorram outra vez o caminho de Damasco. A seguirem pela senda da prestidigitação e do maquiavelismo, Deus pode muito bem nunca lhes perdoar a vergonha. Se é que acreditam nele. Olhe que usar o preservativo não deve ser nunca o tema central do apostolado de uma fé. A camisa-de-vénus é um regulador social, um acto de higiene e de liberdade individual. Só mais uma questão para terminar: Se Cristo, os seus apóstolos e Maria Madalena fossem vivos, acha que só teriam relações sexuais para procriar? Eu, que sou um homem de fé e acredito nos homens, vou cometer a heresia de afirmar que se Cristo fosse vivo, ele mesmo usaria a camisinha se disso tivesse necessidade. Cristo queria salvar as almas dos homens porque os amava e pretendia que eles vivessem alegres e felizes.
PS – Se são católicos, agora no novo ano podem adquirir para oferecer aos mais necessitados fatos, camisolas, camisas e cintos na Zara ou na Modalfa, pois os pobres de hoje não aceitam roupa em segunda mão, comprada nos ciganos ou nos chineses. E têm toda a razão, lá por serem pobres não são obrigados a vestir roupa que já foi usada, confeccionada com defeito ou fabricada com matéria-prima de reduzida qualidade. Também têm a sua dignidade, mesmo não parecendo.
Aos seguidores de outros credos, e mesmo aos agnósticos, o apelo é o mesmo. Nunca se esqueçam que a pobreza não distingue orientações de qualquer tipo. E muito menos as sexuais.

