Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

45 – E foi o que fez. Durante os quinze dias nunca se afastou dos monitores. Nem mesmo quando eles se punham nos muros a namorar com as monitoras que do outro lado vigiavam o grupo feminino. O Artur ainda tentou várias vezes levá-lo consigo para as brincadeiras nas camaratas. Mas ele nunca baixou a guarda.

Logo no primeiro dia foi vacinado e ao fim da primeira semana foi fazer um raio x na companhia de muitos outros companheiros, todos bem acomodados dentro de uma carrinha, como se fossem prisioneiros. Tudo ali tinha um aspecto militar. Deslocavam-se sempre em fila indiana, vestiam bata igual, usavam o mesmo chapéu, dormiam em camaratas com vários beliches de duas camas, respondiam à chamada da voz de comando, levantavam-se cedo, faziam as camas, varriam o chão, vigiavam-se mutuamente, eram obrigados a denunciar os colegas que supostamente se portavam mal, tinham de obedecer cegamente aos mais velhos, especialmente aos que eram chefes de grupo, rezavam mal se levantavam, na hora das refeições e ao deitar. Também podiam ver televisão, mas eram poucos os que se aventuravam, pois era certo e sabido que as camas dos ausentes eram vandalizadas, os armários arrombados e as malas saqueadas.

O José pôs especial cuidado na guarda do dinheiro que os pais lhe tinham entregue. A mãe pediu-lhe encarecidamente que lhe comprasse uma regueifa em Valongo, quando lá passasse de comboio, pois desde que tinha chegado a Montalegre apenas comia do pão centeio que amassava e cozia no forno da Portela.

O José passou mal os quinze dias de férias. Cheio de saudades. Quando via alguns colegas serem visitados pelos pais chorava lágrimas amargas, sentindo-se triste e abandonado. Como se fosse um cão. Nesses momentos chegou a ter saudades dos impropérios da mãe e das conversas de bêbados do pai e dos seus amigos de taberna. E o Artur, em vez de lhe fazer companhia, gozava-o chamando-lhe maricas e quando o via a chorar convocava os outros capangas e punham-se todos a caçoá-lo. Ele limitava-se a chorar e a procurar a companhia dos monitores, não fossem aqueles garotos pervertidos e promíscuos lembrar-se de o sodomizarem em grupo como era prática entre os mais velhos. Os abusados não eram capazes de se libertarem da prática por medo a serem gozados e novamente violentados. Era comer e calar.

Mijaram-lhe na cama, ataram-lhe os cobertores, deitaram-lhe sal e açúcar entre os lençóis, puseram-lhe ratazanas na mala, e, por fim, roubaram-lhe o magro pecúlio. Fartou-se de chorar. Sentiu-se impotente mas rezou a Deus para que matasse os sodomitas e transformasse o Artur num inválido a necessitar de auxílio permanente. Deus lhe perdoasse tão ousado pedido. Se fosse capaz.

As refeições eram outra tortura. Especialmente o almoço e o jantar. O pequeno-almoço era tolerável, pois podia beber café com leite e comer a sêmea bem untada com manteiga. O lanche era sempre um pão com marmelada servido na praia. E mais nada. A refeição do meio-dia era difícil de engolir e a da noite possuía o mesmo encanto. A sopa era uma lavadura gordurosa e de péssimo aspecto. O prato principal era ou frango ou peixe vermelho assado no forno, com poucas variantes. A sobremesa era invariavelmente maçã reineta. O menu só melhorava nos dias em que ia lá comer com os rapazes algum graduado da GNR. Nessas poucas ocasiões atreviam-se a servir canja de galinha, vitela, batatas assadas e, como sobremesa, pudim, um discurso sobre as virtudes do serviço militar e da defesa da ordem pública a que os pais se dedicavam. E, como estavam na presença de jovens filhos de guardas-republicanos, era sempre feito um apelo veemente à militância na Mocidade Portuguesa, esse alfobre de virtudes, essa escola de boas vontades, essa instituição de acolhimento dos melhores filhos da nação.

Os banhos eram outra tortura. Iam a pé para a praia, de mão dada e a cantar o hino da Mocidade Portuguesa, calcorreando grandes distâncias debaixo do sol castigador. Chegados à praia, eram introduzidos dentro de uma barraca onde cada um era forçado a despir-se e a escolher uns calções do montão que fora recentemente utilizado pelo grupo que tinha ido a banhos antes. Tinham de os vestir à pressa, pouco interessando que fossem ou largos ou apertados de mais, punham-se em fila e caminhavam em direcção ao mar onde o banheiro pegava em cada um e o introduzia na onda que se aproximava ameaçadora. Arrepiados de frio e com os olhos piscos, todos voltavam a correr para ao pé da barraca onde se secavam ao sol com a pele a picar devido ao sal do mar.

E a forma não variou durante os quinze dias. Escolher os calções, correr para a água, ser introduzido nas ondas, correr para a barraca a tremer de frio e com os olhos piscos, secar ao sol e, com a pele como bacalhau, comer o pão com marmelada e regressar de mão dada e a cantar o hino da Mocidade Portuguesa. Depois era tomar banho, ser desparasitado, vestir-se, ir jantar, ver os monitores a namorar, contemplar ao longe no mar os barcos e o farol, ou então, nas noites de nevoeiro, ouvir os balidos intermitentes da sirene. Depois ir para a cama, ser incomodado, ouvir histórias escabrosas, gemidos inquietantes, ameaças preocupantes, roncos exasperantes, peidos, gargalhadas, novamente gemidos, observar masturbações, corridas de umas camas para as outras, sentir o cheiro a urina de alguns colchões e adormecer com a inquietação no peito. Para acordar cedo, tomar o pequeno-almoço, rezar, brincar, almoçar, ir para a praia, mergulhar, secar, vir embora a cantar, jantar, rezar, ouvir a sirene do farol, ver os monitores a namorar, chorar, sentir saudades, chorar, ir para a cama, ser incomodado, ser insultado, ouvir gemidos, sorrisos, ver mais masturbações, sentir o cheiro acre da urina, ver colegas a dormir com os olhos quase totalmente abertos por causa das lombrigas, sentir novamente saudades, chorar, rezar para que as férias acabem e para que o Artur fique paralítico e os seus horríveis colegas morram afogados no mar, etc.

Quando a tortura das férias chegou finalmente ao fim, o José ficou tão contente que nem se inquietou muito com o dinheiro que lhe tinham roubado. Guardou duas sêmeas na mala, embrulhou vários pedaços de marmelada em guardanapos com a intenção de os levar à mãe. Na viagem de regresso, enquanto os colegas compravam as regueifas em Valongo e os rebuçados na Régua, comeu as sêmeas recheadas de marmelada e adormeceu.

Para seu alívio, a mãe, quando o viu sair da camioneta, correu para ele deu-lhe um grande beijo e não falou na regueifa, apenas lhe disse que tinha sentido saudades suas. Ele abraçou-se a ela e chorou de alegria. O pesadelo tinha terminado. “Tudo é relativo”, pensou, “até a desgraça”.


publicado por João Madureira às 09:00
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