Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

46 – Ninguém queria acreditar, mas o guarda-fiscal Martins jazia morto e arrefecia no carreiro que ligava Vilar de Perdizes à fronteira. Ali estava ele a fitar o céu com os seus olhos agora cegos e com o pénis ensanguentado, e definitivamente morto, criteriosamente enfiado na boca.

O Martins era um homem severo, rancoroso e interesseiro. Aos olhos dos pobres era visto como um verdadeiro filho-da-puta, aos olhos dos abastados era encarado como homem cumpridor, bom pai de família, prestimoso e temente a Deus. Era um vigarista, mais candongueiro que guarda, apreciador de amantes e de putas, marido infiel e tirano, mas celibatário no casamento, pedófilo prudente, pai lobo, filho ingrato, amigo desleal, tocador de concertina e gaita-de-beiços e, ainda por cima, fogueteiro. Ou melhor, era sócio misterioso numa empresa pirotécnica da zona. Era ainda feio como um sarronco. Batia nos filhos, maltratava os animais, espancava os contrabandistas e violava, quando podia, meninas muito jovens, sobretudo crianças. Sentia-se bem com o mal dos outros e apreciava ver sofrer. Mas era um guarda-fiscal competente, pois conhecia todas as redes de contrabando, os trilhos utilizados pelos contrabandistas e as suas artimanhas. A raia seca era toda sua. Ganhava a meias com o contrabando por si autorizado. E também a meias ganhava com o outro. Se apanhava algum contrabandista carregado de café, azeite, bacalhau, polvo, chocolates, tabaco, perfumes ou bananas, dispunha os bens capturados da seguinte maneira: metade para si e a outra metade dividida em partes incertas pelo Estado e pelo colega de patrulha. Era pegar ou largar. No fim das partilhas, nunca se esquecia de cobrar a taxa destinada ao sargento do posto, trinta por cento do serviço. Não fumava, não bebia vinho ou cerveja e gostava de passear montado no seu alazão, adornado de pistola e pinguelim. Cantava muito bem o fado, talento muito apreciado pelas forças vivas da Vila e pelas senhoras mal consorciadas. Era ainda caçador afamado.

O Martins gostava de acossar as mulheres dos contrabandistas e as suas filhas mais novas. Fazia-o com alguma discrição, mas não era homem para dissimular muito. Os homens do contrabando conheciam-lhe o feitio, por isso faziam-se desentendidos. Era o contrabando ou a honra. Mas a honra, nos lugarejos da fronteira, não dava de comer a ninguém. Ou quase. No entanto, diga-se em abono da verdade, não era as mulheres maduras o que mais apreciava. Cobiçava, principalmente, as fêmeas mais novas. Meninas púberes, ou crianças mesmo.

Os pedófilos mais frequentes são quase sempre gente da família mais chegada, quando não os próprios progenitores. Por isso o guarda Martins, pressentindo na família alguma atitude mais temerária por parte dos pais, ou manos, ou tios, começava a patrulhar a casa com o seu instinto de predador sexual e quase sempre alcançava os seus desígnios. Com a mãe amantizada, com o pai contrabandista, os irmãos oficiando o mesmo e os tios foçando em idêntico mester, a criança não tinha escapatória possível. Passava a ser o arranjo de todos. Mas também era sabido que o Martins enquanto andasse a cear a pardalita não autorizava que mais ninguém lá metesse o dente. E fazia-se respeitar. Era pegar ou largar. O Martins não era besta que se perdesse de amores por ninguém. Detestava o uso. E não era animal de tradições.

Podia ser amante da mãe, copular a filha mais velha e estuprar a menina mais nova da família, nada disso lhe tirava o sossego. Era um homem que pensava que o prejuízo próprio não durava. Quem se acostuma a subjugar destrói a grandeza moral da vida. E o gozo é um vórtice escravizador.

Mas nem as certezas são imutáveis, nem os prepotentes estão isentos do livre arbítrio. Pode-se comprar a honra de um homem, de dez, de cem, mas não se pode conseguir a honra de todos ao mesmo tempo. Além disso, o ser humano é imprevisível. Não os filhos-da-puta, já que esses estão amaldiçoados à desventura do insofrimento.

A princípio, o guarda Martins distinguia-se por ser um predador cauteloso, um raposo finório. Patrulhava o galinheiro com todos os sinais exteriores da estima, do trabalho e do seu enaltecido profissionalismo. Primeiro prendia o pai, de seguida comedia-se em ficar com a carga. Numa terceira fase aliciava o contrabandista para fazer parte da sua rede. A conquista da mulher era o passo subsequente, pois sabia que para chegar ao objecto predilecto tinha de passar pelas fêmeas mais velhas. Logo que elas ficavam amansadas, lançava-se na submissão das pardalitas.

Por vezes isso acontecia numa mesma aldeia entre famílias rivais. Os homens a tudo se acomodam. Mas a inveja é sempre maior que a própria condição humana. E dessa vez o contrabandista abandonado encheu-se de fundamentos e prometeu vingar-se em reunião familiar, pois podia ser corno, a sua mulher e as suas filhas mais novas umas putas do caralho, os seu filhos uns cobardolas, e a sua Rosita uma menina desgraçada para a existência logo desde criança, mas a honra é um pacto triste. Que Deus o amnistiasse, mas ser trocado pela família do Pereira, que sempre foram uns borra-botas, isso não podia aceitar. Vá-se a honra mas fique a tradição. E a sua família sempre foi mais importante do que a dele. Os Pereiras sempre foram cabaneiros, uns infelizes que nunca tiveram onde cair mortos.


publicado por João Madureira às 09:00
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