Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

48 – “O meu José falou na barriga da mãe”, disse com a voz entaramelada o guarda Ferreira enquanto fumava mais um cigarro e bebia outro copo de vinho encostado ao balcão. “Não é verdade meu filho?”, perguntou alto o pai ao filho que lá ao fundo via a televisão. “Como é que posso saber tal coisa?”, respondeu o José. “Só se fosse adivinho.” “Mas é isso mesmo que tu és”, insistiu, orgulhoso, o pai. “Se fosse adivinho adivinhava a lotaria”, proferiu sorrindo o José. “És adivinho mas não és desses. Tu foste escolhido por Deus para semear a sua palavra. Para adivinhar a morte, para prever os desastres, para alindar as calamidades, para vencer a dor, para alumiar a noite”, sentenciou o guarda José preparando-se para beber de uma assentada o terceiro copo de vinho da noite. O José, com os olhos pespegados na televisão, sorriu quando viu o João Villaret iniciar a sua récita abanando gentilmente as bochechas e a papada: “Tocam os sinos da torre da Igreja, / Há rosmaninho e alecrim pelo chão. / Na nossa aldeia que Deus a proteja! / Vai passando a procissão.” O José pôs-se de pé e começou a marchar ao ritmo das palavras do mestre declamador e atreveu-se a recitar como uma câmara de eco: “Mesmo na frente, marchando a compasso, / De fardas novas, vem o solidó. / Quando o regente lhe acena com o braço, / Logo o trombone faz popó, popó.”

O guarda José, já alegrete, sorria, bebia, fumava e insistia: “Ali onde o vê-des, falou na barriga da mãe, disse coisas estranhas, profetizou alegrias e tristezas, vida e morte, batalhas e pacificação. Chegou a adivinhar a morte do meu sogro e a vaticinar a ida e a volta, da guerra de Angola, dos meus dois cunhados. Desde que nasceu que todos lá em casa o consideramos e até lhe temos um certo receio. Tememos as suas palavras. Ele é como os cães que latem na noite pressagiando a morte de alguém. Tem um sexto sentido para a tragédia. É um adivinho.”

E lá vai outro copo de vinho. E mais um cigarro. E o José, junto ao televisor, porfiava em entreter-se com o João Villaret: “Olha os bombeiros, tão bem alinhados! / Que se houver fogo vai tudo num fole. / Trazem ao ombro brilhantes machados, / E os capacetes rebrilham ao sol.”

Enquanto marchava e acompanhava o recitador, os amigos do pai principiaram a olhar para o rapaz de outra maneira. Também eles já tinham ouvido falar dos meninos que falaram na barriga das mães. Eram a modos que bruxos, predestinados a conciliarem-se com o Demónio, bons para fazerem rezas, benzeduras, curativos através de palavras mágicas, mafarricos sempre com um pé na igreja e outra no cemitério, homens da noite, amantes de bruxas, alquimistas. Por isso perguntaram ao guarda José se era mesmo verdade que o rapaz tinha falado na barriga da mãe, adivinhado a morte do avô e a ventura dos seus tios. Ele disse que sim. Que não era mentiroso, nem mesmo quando era civil. Que podia beber um copo a mais, mas nunca por nunca bebia o juízo.

Lá ao fundo, o José perseverava na sua procissão: “Ai, que bonitos que vão os anjinhos! / Com que cuidado os vestiram em casa! / Um deles leva a coroa de espinhos. / E o mais pequeno perdeu uma asa!”

Saindo de dentro do balcão, o dono do café levou um bolo de arroz e um Sumol à mesa do José. Quando olhou surpreendido para o homem, ele estremeceu e, sorrindo como uma criança com medo do desconhecido, perguntou-lhe se via no seu futuro algum infortúnio. O José olhou para o pai e, lendo nos seus olhos uma mensagem apaziguadora, disse que não, que nada de grave lhe ia acontecer. O José estava habituado a estas pantomimas no seio familiar. O embuste já vinha de longe. A Dona Rosa era mestra em inventar ocorrências estranhas na gestação dos filhos para conseguir amedrontar quem nela confiava. Gostava de fazer sentir aos outros um certo incómodo que lhe transmitia poder. Administrar o medo e a ignorância é a pior forma de poder. Gostava de sentir que uma praga sua era mais temida que uma premonição do Padre Zé.

“Vamos embora pai”, insistiu o José enquanto marchava e repetia a última quadra que tinha ouvido ao João Villaret: “Tocam os sinos na torre da igreja, / Há rosmaninho e alecrim pelo chão. / Na nossa aldeia que Deus a proteja! / Já passou a procissão.” E o pai: “Vamos já, só bebo mais um copo para a sossega.” E o José: “Vamos embora pai, se não ainda acontece alguma desgraça.”


publicado por João Madureira às 09:00
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