Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Fornicar ou não fornicar, eis a questão

 

Quando os Babilónios conduziram os judeus para o cativeiro, pediram-lhes que tocassem harpa. E os judeus disseram: “Trabalharemos para vós, mas não tocaremos.” É o que agora devemos passar a dizer. Trabalharemos para o Estado mas não vamos fornicar mais sem a ajuda, a tempo inteiro, dos contraceptivos. Não vamos continuar com isso de fazer crianças. Não queremos conceber crianças para as colocar perante a indiferença do Estado. Por isso não vamos tocar gaita-de-beiços. Fodei-vos.

 

Tenho este pensamento estranho enquanto a chuva forte tamborila nas janelas e coloco uns cilindros de madeira sintética na lareira. De seguida tomo o meu ansiolítico, preparo o café e abro uma garrafa de água mineral. E também me boto a fumar uma cigarrilha, pois ando a tentar deixar o vício do tabaco. Volto a pensar na Crise e sublinho na revista LER as palavras de Abel Barros Pinheiro: “Crise é o momento da decisão, é afinal um estado de ânimo propenso à acção e consequentemente à felicidade. As pessoas, como se sabe, ficam mais felizes quando se mexem.” É o que eu tenho de fazer. Mexer-me. Fornicar é preciso, viver não é preciso. Fornicar mas não procriar. Temos que fazer como os judeus. Já que nos cortam no salário, nós temos de cortar na procriação. Afinal o povo é quem mais ordena. E se o povo não procriar ninguém mais procria coisa que valha a pena.

 

Entretanto olho para a lareira e fixo-me durante um instante na estranha chama produzida pela lenha sintética. Enquanto puxo o fumo da cigarrilha lembro-me de um poema de Carlos de Oliveira: Entra pela janela / o anjo camponês; / com a terceira luz na mão; / minucioso, habituado / aos interiores de cereal, / aos utensílios / que dormem na fuligem; / os seus olhos rurais / não compreendem bem os símbolos / desta colheita: hélices, motores furiosos, / e estende mais o braço; planta / no ar, como uma árvore, / a chama do candeeiro. Seguidamente olho para o meu bonsai de plástico e choro. Eu, que sempre me senti, como bem definiu um meu falecido amigo, um rural empedernido.

 

E agora algo completamente diferente. Pego nos jornais e revistas e ponho-me a ler.

 

Começo pelas palavras do senhor embaixador inglês, na hora da despedida. Depois de ler a entrevista ao Expresso, orgulho-me da nossa relação com os ingleses. O senhor embaixador adora-nos. Considera que a nossa sociedade é mais aberta que a sua, que o coração é o lugar mais importante do corpo de qualquer português. E isto é lindo, lindo. E vindo de quem vem, até me provoca pele de galinha. Fico mesmo arrependido de ter tomado o meu ansioliticozinho, pois ler tão bonitas palavras chegava e sobrava para combater a minha depressão por um dia ou dois. Mas agora já está e não posso vomitar o comprimido.

 

O senhor Richard Ellis é um amante da nossa língua. O Foreign Office pagou-lhe um curso intensivo de português. E ele, para aproveitar o tempo e o dinheiro ao máximo, estudou o português básico com as encantadoras peixeiras de Matosinhos. Aprendeu, inclusive, a verbalizar, sem soletrar, alguns palavrões. Ai este bom povo português! Na sua opinião avalizada, o Norte é o melhor lugar para aprender uns palavrões. Nisso somos parecidos a nuestros hermanos.

 

É evidente que ainda estudou a nossa língua com outras pessoas mais distintas. Daí a sua preferência por três vocábulos: “pantufa”, palavra maravilhosa que presumivelmente aprendeu com algum conselheiro de Estado; “paralelepípedo”, que de certeza conheceu com um professor pós-doutorado da Universidade; e a “brutal” (o adjectivo é seu) palavra “arroto”, que de certeza ouviu nalgum jantar com a família de acolhimento em Matosinhos. Mais tarde percebeu porque se arrota tanto em Portugal. “Em Portugal”, disse o senhor Embaixador, “nada se faz sem a frase ‘temos de almoçar’. Eu gosto imenso”. Também nós, senhor embaixador, também nós. Por isso adoramos arrotar. Quando comemos libertamo-nos. Até dos gases. É a nossa catarse.

 

E disse mais outra coisa admirável. E intrinsecamente verdadeira: “Uma reunião de trabalho em Portugal é um desastre. Ninguém diz nada, é para inglês ver. Depois as pessoas abrem a porta e saem – e aí é que começa a reunião.”

 

Novamente olho para a lareira onde arde o quinto cilindro de madeira sintética. Dou nova golada na água mineral e bocejo. Lá fora a água da chuva continua a tamborilar nos vidros das janelas. Distraído, ou talvez não, fixo-me numa frase de Eduardo Lourenço: “Os portugueses tendem a confiar na providência.” Por isso sigo uma sugestão do Expresso e vou para a cozinha tentar combater a crise. Pois é mais do que evidente que não se pode combatê-la com comprimidos.

 

PS1 – Como os almoços e os jantares são as despesas que mais fazem subir o orçamento familiar, devemos confeccionar vários petiscos que podemos comer durante a semana. Cozinhar todas as refeições para um ou para dois é um desperdício. Vá ao Modelo, ao E.Leclerc, ou ao Pingo Doce e esteja atento às promoções. Há várias durante a semana. Aproveite ainda as feiras que aí se fazem para comprar bom vinho, enchidos e queijo a preços baixos. Se morar junto de um Ikea pode lá comer por umas cascas de alho: uma sopa e uma sandes podem chegar a custar apenas um euro. Maia barato nem nos chineses consegue.

PS2 – Se se der bem com a cozinha e for adepto do Facebook, pode apostar numa interessante estratégia para ganhar algum dinheiro: combine jantares lá em casa, publicite-os na internet, cobre 20 euros por cabeça e aproveite para fazer novos conhecimentos e rever alguns antigos. Se a sua sala for espaçosa e nela tiver uma mesa grande, pode arrecadar 200 euros numa noite.

 

E ainda dizem por aí que o Expresso apenas serve para encher o cesto dos papéis.

 


publicado por João Madureira às 09:00
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