Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011

O Poema Infinito (33): a pulsação da luz

 

Abre-se a extensão do acolhimento e devagar a narração ganha outro sentido. A intimidade do lume empolga a glória da vida. A era antiga move-se na direcção da palavra. Ao longe aparecem os nomes claros dos lugares eternos. Alguém anuncia o júbilo do amanhecer. O mundo fica agora suspenso no próprio olhar. Pulsa a luz nos nossos olhos contemplando o ritmo agudo da vida. É perceptível a transparência do adeus. Põe-se a mesa onde são servidos os sinais do espírito. O tempo alarga-se para lá dos objectos. O mar sucumbe ao vagar eterno da matéria. O ritmo largo das manhãs prolonga o teu rosto e o rosto das deusas prolíferas. As portas abrem-se iniciando o enigma da sabedoria. As árvores deslumbram-se nos seus frutos e apuram a paciência da terra. Os corpos irradiam actos. A iluminação dos amantes rompe do interior do seu desejo. Os seus sexos são anjos imperiosos. Depois do amor invade-nos o vagar eterno da nostalgia. É azul a subtil firmeza do silêncio e da solidão. O tempo sobe pela nossa imagem enraizando a sua teimosia. É a sua lei. Os objectos adequam-se ao remanso das águas. Voltamos à viagem, à teimosa penitência do caminho. A alegria surge como uma eterna tarde de domingo. A previsão da tua face é um indício de luz. É impetuosa a inclinação da posse. A expansão do espaço devolve-nos a celebração da ausência. A palavra funde a ausência. Escutamos o silêncio ruidoso do adeus. A necessidade amplia a falta dos desaparecidos.


publicado por João Madureira às 09:00
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