Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

49 – Os amigos, pressentindo algum mau agoiro nas palavras do futuro padreco, também aconselharam o guarda José a ir embora. Todos conheciam o mau génio da Dona Rosa. E uma desgraça nunca vem só. Logo de manhã, os três recos mais taludos da criação do GNR tinham morrido vitimados pela peste suína.

Mas o guarda desculpava-se e teimava em beber, pela quarta última vez, mais um copo para a sossega. O José persistia na sua marcha de um lado para o outro enquanto as notícias do telejornal encalhavam na mais profunda indiferença de todos quantos estavam no café.

Antes mesmo de se fixar no cão, o José arrepiou-se como se tivesse visto um fantasma. Era mesmo o Leão. E onde aparecia o Leão era certo e sabido que havia logo de lhe suceder a Dona Rosa.

O José correu para junto do pai e escondeu-se nas suas costas. O pai olhou para ele e perguntou-lhe a razão de tal brincadeira. Ele tentou falar mas não conseguiu. Todos adivinharam o pior. E o pior aconteceu.

“Lá vem a bruxa”, disse um a rir-se de nervoso. A Dona Rosa entrou no café e começou logo a disparatar. “És a desgraça da minha casa. Um bêbado incorrigível.” “Cala-te mulher. Tem tento na língua”, pediu o guarda Ferreira. “Afinal de contas és a mulher de um agente da autoridade”. E ela: “Bom agente da autoridade tu me saíste. Um GNR que se dê ao respeito não vem todos os dias para aqui beber copos de vinho na companhia destes estroinas.” “Cuidado com que diz, Dona Rosa,” avisou o dono do estabelecimento. “Esta é uma casa séria e de gente de respeito. Por isso tenha tento na língua.” “Não vejo grande seriedade numa casa que vive da desgraça dos outros. Tem-nos bem endrominados. Por certo deita alguma mistela na merda do vinho”, disse cuspindo raiva a Dona Rosa. “Este vinho é de Valpaços, minha senhora, não é merda nenhuma”, contrapôs o dono do bar. “Nem que fosse do Douro ou do Alentejo, depois de baptizado fica todo igual. E quem ganha a vida a embebedar os outros não pode ser gente honesta. Todas as noites estes bebedolas enchem o odre de vinhaça pagando e bebendo, bebendo e pagando, copo atrás de copo enquanto os filhos e as mulheres manjam tristemente uma malga de caldo desenxabida acompanhada de água da fonte. São todos uns bebedolas e uns putanheiros”, ralhou a Dona Rosa. Ao guarda Ferreira nem se lhe engolia o vinho que teimava em ingerir para não fazer outro disparate. O José, encostado à porta, observava a mãe enquanto chorava copiosamente. O dono do café fazia que lavava e limpava os copos. Os restantes homens bebiam em silêncio como se estivessem num velório. O Leão, junto à dona, atreveu-se a ladrar. Mas foi atrevimento que mesmo a Dona Rosa desaprovou com uma vergastada.

O guarda Ferreira, acendendo outro cigarro na beata do que acabava de fumar, pediu à mulher: “Vai embora Rosa que eu já vou. Leva contigo o rapaz. Por favor, não nos envergonhes mais. Por favor Rosa.” “Quem nos envergonhas és tu. O povo já te conhece como o guarda borrachicas. Todas as noites chegas a casa a cambalear. Que belo exemplo para os teus filhos. Lembra-te que o mais velho vai para o seminário e precisa de guardar de ti a imagem de um pai respeitado…” “E de uma mãe educada”, atalhou-a o marido.

O José, olhando para o pai com os mesmos olhos que a mãe de Jesus olhou para o seu filho pregado na Cruz quando os guardas romanos o gozavam desafiando-o a descer e a ir-se embora pelo próprio pé, continuou a chorar com tanta desonra que acabou por mijar nas calças. Os outros homens, pressentindo que a tragédia picaresca tendia a piorar, começaram a despedir-se e aconselharam o guarda Ferreira a fazer o mesmo. “Por hoje já basta”, disseram a modos que envergonhados os desprotegidos maridos das suas esposas antes de abandonarem o tasco. “Vai para casa que o Virtudes já tem o caldo feito, os animais acomodados e os teus filhos mais novos comidos e dormidos.”

A Dona Rosa, picada pelo remoque, novamente os insultou com todo o engenho e arte que possuía para executar tal tarefa. Eles mandaram-na àquela parte, por respeito ao Guarda Ferreira, e foram-se dali até outra taberna beber o que cada um tinha por medida.

Homens de barba rija e com eles no sítio, bebiam o que tinham a beber sem que as respectivas mulheres metessem o bico onde não eram chamadas. As regras do casal eram entendidas pelas duas partes logo no segundo dia após o casamento. As desinteligências resolvem-se no remanso do lar. O decoro tem de imperar fora de portas. Quando falta o respeito entre um homem e uma mulher a vida transforma-se num inferno. E, pela parte masculina, quando não funciona a palavra trabalha o cinto, a vergasta ou o tabefe. Em situação idêntica, as mulheres quase sempre resolvem apropriar-se da sexualidade do casal e, na sua lenta marcha vaginal, atacam com a tortura da castidade. O mundo não é perfeito. Todos o sabemos desde que Adão e Eva se armaram em finórios. E Deus, que é Deus, também não se portou lá muito bem com as duas criaturas. E deitar todas as culpas à cobra e à maçã não chega para expiar toda a incúria do supremo e toda a aselhice do Adão. Mas, apesar de tudo, nenhum daqueles corajosos homens, que eram amigos do guarda Ferreira, se atrevia a imaginar o que era viver com a bruxa de portas a dentro. Deus os livrasse de tal maldição.

 


publicado por João Madureira às 09:00
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