Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

O Poema Infinito (34): a ti voltarei


Nós somos pequenas lâmpadas que persistem no vento experimentado na marcha dos dias nas calçadas do tempo. As pequenas gotas de vida persistem. O espaço verga-se na densa imensidão do sol. Ignoro o amor da erva e declino-me nos teus braços erguidos. A ausência do rumor do vento nas folhagens queima a alegria. As minhas palavras dizem a falta súbita do silêncio. O teu odor a fêmea é misterioso. O desejo ganha força. Eu insisto. A água banha-se no teu corpo jorrando carícias. Não quero sentir de novo a ânsia expectante dos espectros. Volto a escrever o gesto duro da ausência. Volto a duvidar da harmonia. Volto a desejar o desejo. Volto a coincidir na vasta ilusão do que escrevo. Ou como te descrevo. Aos meus olhos cansados custa-lhes fabricar uma nova realidade. A terra enche-se de mulheres descalças. A terra é um átrio circular inflexivelmente harmonioso. Eu sou um quadrado perfeito. Tu és água quase silenciosa. O vento volta a polvilhar de cinzas as memórias. As sombras vangloriam-se com o triunfo da noite. O tempo ganha tempo ao tempo. E nele nasce uma linguagem sem pintura. Envelhece a carne ao sol. A liberdade já não me quer. O silêncio é idêntico à exactidão de Deus. Nutro-me do teu calor circular. A fome visual anseia pela aparência colorida dos espelhos. Escrevo na perfeita ilusão da justiça. Na ilusão do amor inflexível. Eu sou o homem que te ama e escuta. No silêncio lento da tua língua procuro o amanhecer dos frutos, a luz que acende a carne, a verdade lenta do sangue, a circulação infinita do desejo. Bebo-te sossegadamente recitando poemas de flores embriagadas. Os sussurros da lascívia conquistam-nos os sexos. Um perfume de fecundidade cresce nos lábios dos rios, nos degraus extensos das pedras, na crua luxúria das árvores. É sobre o silêncio, sobre a noite, sobre os corpos exactos, sobre as línguas de sol, sobre os pães da fome, sobre os dias rigorosos, sobre a terra e o espaço que desejo falar-te e sobre a verdade e sobre os nomes puros e sobre as bocas alongadas das nascentes e sobre as fissuras dos mares. E sobre as folhas verdes. E sobre a extensa ambição do meu desejo. E sobre a fome conjugada dos abraços. E sobre a forma do fogo. E sobre as nuvens densas do envelhecimento. E sobre a serenidade das páginas dos livros. E sobre os bichos translúcidos que habitam a minha cabeça. Por isso tudo a ti voltarei descansado na minha nudez e sobre o silêncio da noite tornarei a habitar-te.


publicado por João Madureira às 07:00
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1 comentário:
De Cris a 19 de Abril de 2012 às 23:06
Do princípio ao fim, texto, maravilhosamente bem escrito.
Gostei muito da tua escrita, João.
Certamente - Voltarei!
Abraço.
Cris


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