Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

50 – “Vá embora senhor Ferreira”, aconselhou novamente o dono do café. “A despesa de hoje fica por conta da casa. Acompanhe a sua senhora. Vá em paz.” Mas o guarda Ferreira, para provar que quem mandava lá em casa era ele, pediu novo copo de vinho, acendeu outro cigarro e disse: “Eu vou para casa quando me apetecer. Em mim ninguém manda. Muito menos este estafermo de mulher.” “Estafermo és tu, meu bebedolas”, ripostou a Dona Rosa. “Exijo respeito”, disse o soldado da GNR. Mas a sua senhora nada de se calar: “O respeito ganha-se, não se impõe. Sabes bem que um bêbado não é respeitado por ninguém. Nem sequer pelos outros bêbados. Eu só saio daqui quando tu também saíres.” “Tu não és a minha mulher, tu és o vivo demónio de saias.” “Não me insulta quem quer, meu bebedolas. Só quem eu deixo.”

“Vaca”. “Bêbado”. “Puta”. “Borracho”… e marido e mulher continuaram a trocar insultos com uma raiva inusitada. O dono do café, quase em estado de choque, resolveu implorar ao seu melhor cliente: “Faça-me o grande favor de ir embora, amigo Ferreira. Tire-me a sua mulher do meu café. E leve a pobre criança para casa. Se vocês os dois já não se conseguem respeitar, honrem ao menos a inocência e a dignidade do vosso filho.”

O guarda Ferreira pegou na mão do José e abalou dali para fora com toda a tristeza do mundo dentro do seu coração.

“Quando chegarmos a casa fodo-te os cornos, minha bruxa do caralho”, ameaçou entre dentes o guarda Ferreira enquanto descia a Rua Direita aos ziguezagues.

Enquanto a coruja do castelo se entretinha na caça a mais um rato e piava o seu entusiasmo, a Dona Rosa confessou o seu desengano: “Trouxeste-me para este degredo onde mesmo os bichos se sentem mal. És o culpado da nossa desgraça. Vivíamos tão bem em Lisboa. Éramos tão felizes! Não éramos filho? O José: “Não sei, mãe.” “Não éramos homem?” O guarda Ferreira: “Foste tu a culpada de ter pedido a transferência para o Porto e depois para Montalegre. Eu não queria vir. Fui-me embora destas terras porque não queria ser aqui escravo. Mas tu… tu desde que chegaste a Lisboa, todos os dias me atazanavas o espírito para pedir a transferência. Dizias que não te davas bem, que tinhas saudades dos teus pais, que os eléctricos te incomodavam, que os homens te perseguiam, que os vizinhos te afligiam, que o sol te fazia mal, que aquilo não era vida. Que não podias criar as pitas e os coelhos, de que tanto gostavas. Que não podias cevar o porco. Que não podias semear as batatas, os feijões, os tomates e os pimentos. Que não te podias aquecer ao lume. Que cozinhavas num fogão a petróleo, que partilhavas a sala, a cozinha e o quarto de banho com uma velha, um casal de pescadores, um maluco, um solteirão e um gato. Que não tinhas intimidade. Que o José dormia aos pés da cama. Que as mulheres dos meus colegas te gozavam por usares o cabelo até à cintura. E o Leão: “Ão, ão, ão…” E o guarda Ferreira: “Cala-te cão.” E o Leão: “Ão, ão, ão…” Novamente o guarda Ferreira: “Cala-te cão.” Novamente a Dona Rosa: “Isso foi quando cheguei. Mas depois queria ficar e eras tu que querias vir embora. Que não conseguíamos amealhar tostão. Que o aluguer da casa era alto. Que os homens olhavam para mim como se me quisessem comer. Que o meu patrão era mulherengo. Que o teu capitão era um ditador. Que o vinho não prestava. Acho que nos obrigaste a vir embora porque lá não podias embebedar-te à vontade. Foi isso não foi?” Novamente o guarda Ferreira: “Eu não podia fazer um pedido de transferência e de seguida retirá-lo por puro capricho da minha mulher. A GNR tem as suas regras. Tudo tem as suas regras. Até tu tens as tuas regras.” A Dona Rosa enraivecida: “Eu já não tenho regra há três meses.” Novamente o guarda Ferreira: “Não me digas que andas outra vez grávida? Para que raio nos serve comprar as camisas-de-vénus?” A Dona Rosa condescendente: “Com a pingota nem sequer reparas que não as usamos. É o cabo dos trabalhos pôr-te a piroca de pé, quanto mais enfiar-te lá a borracha” O guarda Ferreira amparando um poste de electricidade: “Tem tento na língua. O José mesmo lá à frente pode ouvir-nos.” A Dona Rosa despeitada: “Ele está farto de nos ouvir.” Novamente o Leão: “Ão, ão, ão…” O Virtudes, junto ao portão, com o João ao colo: “Venham para casa, almas de Deus.” Novamente o Leão: “Ão, ão, ão…” O Virtudes virado para o José: “Anda cá meu filho. Não chores mais. Não chores mais meu filho. Guarda as lágrimas para o seminário. De certeza que vais verter muitas. Os teus pais amam-se tanto que se detestam. É a filha da puta da vida.”

 


publicado por João Madureira às 07:00
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