Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2011

O Poema Infinito (35): exaltação

 

Descubro o teu nome numa paisagem vertiginosa. A Primavera está impossivelmente deitada sobre o abismo dos cálices transparentes da juventude. Eu sou teu através das palavras. Parece que sorris numa solidão espantada. Olhas-me como se eu fosse a tua infância flutuando na fantasia vagarosa das águas. Estávamos debaixo de uma árvore inspirada e eterna. O meu amor invisível envolvia a tua carne rápida. A luz silenciosa dos teus olhos devorava o ardor humilde da música dos pássaros e do vento. A cidade delicada cumpria silenciosamente o nascer do nosso desejo. Sonhávamos com aventuras iluminadas por misteriosas delicadezas. O pensamento cobria-se de rostos e de instrumentos musicais. Voávamos à velocidade dos sorrisos. O brilho dos dias iluminava as cidades de ouro. O amor era ainda uma geografia irradiante. Ardíamos no calor do tempo. As nossas mãos corriam nos nossos corpos como sexos sumptuosos. As águas cantavam nos rios. E os milagres morriam ao sol. Corríamos no brilho das janelas onde a luz do luar dançava num murmúrio gelado. Descobríamos a virgindade apurada das flores e as últimas chuvas de Março rodeadas de palavras exemplares. Dormíamos inclinados sobre a melancolia e sonhávamos com um deus secreto. Comecei então a trazer cavalos incendiados para os meus poemas que te declamava enquanto restituías deslumbramentos à imaginada pureza dos homens e das mulheres. A realidade já nesse tempo nos sorria enigmaticamente. Ardíamos devagar comovidos pela inclinação demorada da verdade. A inspiração demoníaca dos poemas levantava-se sobre as águas do rio e cumpria o paraíso. Todo o fogo da terra ardia na velocidade das estrelas. E as casas levantavam-se loucas de imobilidade. E novamente as nossas mãos multiplicavam desejo e carícias e beleza e paciência. A nossa voz ardia encantada por nos escutarmos. A secreta eternidade dos gestos transformava cada instante numa história de desejo. E do desejo nascia mais desejo. E o tempo acontecia espantado com a nossa juventude. Tu eras uma árvore exaltante. Os teus lábios diziam verdades veladas pelo silêncio. E o silêncio dizia mais silêncio. E depois todo o silêncio se transformava na palavra amor. E de novo o mundo tornava a nascer. E os bichos cresciam como uma religião frágil. E o fogo nascia fecundo confundindo as madrugadas. E as nossas mãos formavam tempestades e os livros repletos de flores de ideias morriam espantados de tantos mistérios. Também este poema se faz de carne e tempo, da esplêndida violência da vida. Por isso continuo a colher o espanto que então semeámos. Continuo a beijar o milagre do acaso a encher cada instante de existência com a inocência da alegria. O corpo chama o corpo. A sagrada loucura da vida descansa agora na doce claridade da manhã. Sei que continua a existir alguma coisa capaz de denominar o elo dos nossos corpos. Arde-nos ainda a carne quando o sangue atravessa a noite. Os beijos ainda sopram alucinados. A manhã começa a descansar deitada no meu poema. E eu começo a descansar prostrado por cima de ti. O silêncio da tua língua sugere de novo o mundo da lascívia.


publicado por João Madureira às 07:00
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