Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

O Homem Sem Memória

 

51 – O macho e a carroça que transportava o baú e as malas com o enxoval do José começaram a subir a ladeira ainda se enxergava um lusco-fusco premonitório. Perto do pelourinho o bicho aliviou um pouco a sua asma e seguidamente desceu a ladeira, caras ao comércio do senhor Aníbal, um valpacense que ali na vila negociava o bom vinho da sua terra a preços razoáveis. Era na sua camioneta que as malas com o enxoval e a restante roupa do José iam fazer o caminho do seminário. Nela seguiria também o Virtudes para ajudar no que fosse preciso. O José tinha lugar reservado no NSU do Padre Zé. Nisso o senhor abade foi inflexível, o futuro cura tinha de ser acompanhado pelo padrinho espiritual. Fora ele quem lhe tinha sugerido a ideia, quem tinha insistido no propósito, quem tinha dirimido os argumentos favoráveis, resumindo: quem, nas palavras do guarda Ferreira, tinha endrominado o seu admirado filho. Não é que a ideia lhe fosse estranha ou a situação virgem na família. Um tio seu fora, em tempos, para o bem e para o mal, padre afamado na sua freguesia. Possuía poder político, poder económico e espiritual na comunidade, e possuía, ainda, de vez em quando, as mulheres dos outros ou uma que outra fêmea solitária mas intensamente devotada a Deus e muito próxima dos seus santos. Comia e bebia como um abade, caçava como um príncipe e dormia como um anjo. Até que um ataque o fulminou num repente.

A Dona Rosa, devido ao seu carácter teatral, foi aconselhada a ficar em casa a tratar dos filhos. Mas ela teimou, teimou e venceu. Parecia uma pita riça, desgrenhada e choramingona, quando saiu de casa rodeada dos seus pintos banhados em lágrimas e ranho por assistirem, impotentes, à triste encenação neo-realista da mãe a chorar, o Leão a ladrar, o Virtudes a gemer e o guarda Ferreira a fumar nervoso um maço de cigarros sem filtro entre o despertar e o mata-bicho.

Quando o José se acomodou no assento da frente do carro e o Padre Zé empreendeu a viagem de ida, a Dona Rosa desmaiou devagarinho, para não se magoar, pousando serenamente o Joãozinho no passeio e gritando para o mundo: “Este filho há-de matar-me do coração.” O guarda José limitou-se a acender mais um cigarro e, pegando no Joãozinho, ordenou: “Vamos para casa, filhos. A vossa mãe parece que quer ficar a dormir no meio da estrada.” O Leão, solidário com a patroa, pôs-se a lamber o rosto da Dona Rosa.

Estrada fora, acelerando muito de vez em quando e curvando com suavidade para o moço não enjoar, o cipreste falou ao seu discípulo da nova vida que ia encontrar pelo simples facto de ingressar no seminário. Dedicar a vida a Deus e à sua Igreja era uma tarefa da mais alta responsabilidade. Muitos eram os convocados mas poucos os eleitos. José, olhando para os montes ao redor, reprimia o choro com todas as suas forças. Ainda só iam em São Vicente da Chã e já sentia uma saudade imensa do que deixava para trás.


publicado por João Madureira às 07:00
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