Quarta-feira, 2 de Março de 2011

O Poema Infinito (37): belos sonhos

 

Hoje é dia de espalhar as sementes da água que germinarão nos jardins dos homens-vegetais. A inevitável flor de Março florescerá no interior das rochas e os pássaros cantarão estátuas de murmúrios. Lagos de memória expandir-se-ão sobre as paisagens de papel, os corpos irradiarão silêncios frios e as paixões serão ritualizadas por cima dos desertos do tempo. As mãos imobilizadas pela queda das sombras murcharão como túneis de voz. Os peixes serão azuis ou não serão peixes e o azul será um sexo nómada ou não será amor. A boca aberta suga a seiva da luz, o desejo treme como a noite. Abril chegará calçado de desilusão desassossegando o peso enigmático das máscaras revolucionárias. Murcham os lábios nos beijos dos espelhos, os corpos desaparecem dentro do seu peso. Os olhares explodem dentro dos frutos verdes. Louvada seja a música das cidades incendiadas. Louvado seja o chão pendurado no altar. Louvados sejam também os mapas mentais dos textos sagrados. Tenho ainda presa na boca a imobilidade do teu sexo. Sonhos voluptuosos de fotografias assustadas descem por dentro das horas tristes. No teu rosto sorri a hora do pranto. O gelo da noite acumula alegria. Crianças morrem alegres murmurando as sílabas da palavra imortalidade. O colete-de-forças divino volta a atacar. Folhas secas de esperança voarão para fora dos gestos. Alguém mente várias verdades primárias. Este é o primeiro dia da criação. O segundo é um caixote de trevas absolutas. No terceiro nascerá uma luz cega que nos guiará até ao abismo. Os restantes serão sílabas de água salgada. Sereias peregrinas adormecem disfarçadas de travestis. Os astros invadem a terra. O sexo de Deus roça nas montanhas abrigadas do vento Leste. Prostitutas virgens gemem cheias de cio. Romeu e Julieta desincham depois de mais uma cópula venenosa. Shakespeare sodomiza um demónio adormecido. Santos repousam vigiando multidões frágeis. Generais eunucos cantam hinos de glória. Fernando pessoa estrangula os seus heterónimos depois de fumar ópio e de ter bebido uma garrafa de absinto. Da Vinci fornica um anjo depois de o ter pintado no tecto da Capela sistina. Exércitos de faraós derrubam as pirâmides e escondem o Sol. Tarzan abandona as histórias aos quadradinhos, divorcia-se da Jane e contrai matrimónio com um gorila de Bornéu. Sinais de beleza entardecem nos olhos dos cegos. Lá fora o dia constrói a noite. E eu preparo-me para adormecer. Já basta de sonhos tão belos. 


publicado por João Madureira às 07:00
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