Sexta-feira, 4 de Março de 2011

O Homem Sem Memória

 

53 – Passou um ano de cão. Cheio de frio, ougado, com uma fome permanente e com umas saudades da sua família e da sua vila tão eternas como Deus. Chorava por dentro e por fora. Sempre sozinho. Como quem reza. Quando desesperava pensava nos dias de neve passados junto à lareira e nos olhos verdes e claros da Luisinha.

Ali no seminário tudo era frio e escuro, os padres, os colegas, os dormitórios, a comida, a amizade, a coexistência, o estudo, Deus, o Demónio. Até os sonhos. Quando desesperava pensava nas brincadeiras com os colegas em dias de sol e nos lábios carnudos da Luisinha.

Dormia mal, comia pior, rezava com uma correcta antipatia, estudava a custo, ouvia o latinório dos seus professores como quem escuta pragas ou insultos. Não atinava com qualquer tipo de razão em tudo aquilo. Nada ali fazia sentido. Nem Deus. Ou muito menos Ele. Tanto discurso vazio, tanta palavra oca, tanto ritual estéril e absurdo. Quando desesperava pensava nas idas aos níscarros e nos cabelos encaracolados da Luisinha.

Se alguma coisa aprendeu durante aquele primeiro ano foi que Deus é uma imensa ausência. Nunca o pressentiu, nunca o intuiu, nunca lhe sentiu o alento, ou o toque espiritual. E fartou-se de o procurar nos livros, nas palavras dos padres mais complacentes, nos sentimentos mais nobres dos colegas, nos dias de sol, nas noites de chuva, nas tardes de reflexão e estudo, ou logo de manhã muito cedo quando acordava com o repicar dos sinos. Mas só sentia frio, fome, insegurança, desespero, tristeza, desilusão. Uma irremediável desilusão. E quando desesperava pensava nas manhãs de domingo banhadas de leituras e de sol. E no sorriso lindo da Luisinha.

Aquele era um casarão de homens vazios, que viviam o dia-a-dia a enganar-se com as palavras, a iludir-se com os textos sagrados, a estudar retórica e várias latinices decrépitas, a aprender a mais absurda das profissões, a de propagadores da salvação e da vida eterna. Eles que duvidavam das trevas e da luz, que punham em causa o suplício da castidade, que desconfiavam dos milagres, que questionavam a razão do Inferno, que identificavam o céu com uma palavra cheia de ambiguidades, que diziam amar a pobreza mas a abominavam, que sonhavam em ser lascivos, que aspiravam a comer frugalmente, a ter carro e casa e mulher, ou homem se fosse essa a inclinação do seu fervor. De facto, por ali habitava muito animal misógino. Mas quando desesperava pensava nas noites lentas de Inverno quando, junto à lareira, ouvia as histórias fantásticas e fantasmagóricas contadas pelo Virtudes. E nas palavras meigas ciciadas ao seu ouvido pela Luisinha.

Descobriu que o pecado, mais do que Deus, Cristo, os apóstolos, os anjos, ou a Virgem, era o centro das inquietações e das pulsões de todos aqueles rapazes desalentados, frios e calculistas. E quando desesperava pensava nas batatas cozidas e nos chouriços de cabaça comidos no escano enquanto o Joãozinho mamava na teta da mãe e lhe sorria com o seu ar travesso. E nos mamilos da Luisinha. 

Fartou-se de procurar Deus, mas o Criador teimou sempre em jogar com ele ao gato e ao rato. Deus nunca lhe apareceu, nunca se revelou, nem a ele nem a ninguém ali por perto. E havia muitos rapazes que o esperavam com toda a ansiedade e toda a ilusão do mundo. A fé e a razão andavam sempre aos baldões dentro do seu cérebro sem nunca se encontrarem. E quando desesperava pensava na sua colecção de jogadores e nas coxas de rã da Luisinha.

Fartou-se de ler livros devotamente apócrifos. A biblioteca nisso era exemplarmente variada. E quem descobria aqueles livros não podia pensar que os lia em vão. O conhecimento não se pode apagar da cabeça de uma pessoa como quem apaga um verso de amor escrito a lápis num caderno da escola. O conhecimento pode trazer lucidez, mas quase sempre é a fonte de todas as angústias, de todas as depressões, de todas as dúvidas. Um cientista pode desconfiar da ciência que ninguém lhe leva a mal. Mas um futuro servidor de Deus não pode, nunca, suspeitar da Sua existência. Mas o José suspeitava. Por isso chorava de raiva.

E quando desesperava pensava nos dias em que enchia a boca de chicletes e corria impaciente até ao castelo. E no rabo enérgico da Luisinha.

Conjecturava que se não conseguia encontrar o caminho de Deus através dos livros e das prédicas dos seus professores e colegas mais velhos, muito menos podia atinar com o atalho divino através de um putativo chamamento. A fé não o convocava. O seminário não o satisfazia. Os estudos não o catequizavam. Os seus professores não conseguiam evidenciar-lhe a verdadeira razão de ser cristão e padre. Ali falava-se muito de sacrifício, de ajuda, de dádiva, de entrega, mas ele sentia o mesmo que quando ouvia palrar os ricos lá da terra na sua desinteressada ajuda aos pobres para dar a Deus. O dilema continuava a ressoar na sua cabeça: é mais difícil entrar um rico no reino dos céus do que um camelo… E quando desesperava ainda mais masturbava-se pensando na vagina rosada da Luisinha. O pecado, Deus meu, é salvação.


publicado por João Madureira às 07:00
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