Segunda-feira, 7 de Março de 2011

Travanços e acelerações

 

Hoje começo pela desgraça. Dizem por aí os políticos e os economistas encartados que estamos à beira da bancarrota. É muito provável que assim seja. E quem não tiver culpas que atire a primeira pedra. No entanto, o que mais me entristece é a bancarrota ideológica a que assistimos impávidos e serenos como se a nobre arte da política fosse, ao mesmo tempo, uma brincadeira e uma birra de miúdos.

 

O Expresso noticiou, vai para uns dias, que o buraco financeiro passou de 680 milhões para 281 milhões de euros. O que foi um travanço digno de registo. Sócrates rejubilou, Passos Coelho engasgou-se e Cavaco Silva ficou, mais uma vez, mudo e quedo, como é seu timbre. E ainda bem, pois, como muito bem diz o nosso querido e adorado povo, quando o homem fala ou entra…  (bip censório) ou sai… (bip censório).

 

Depois de, nos últimos meses, o nosso primeiro-ministro andar pelo mundo fora a promover a economia portuguesa e a tentar vender a dívida nacional, agora resolveu, e bem, arrumar as malas e dedicar-se a visitar a nossa ditosa pátria bem-amada, para inaugurar escolas, lançar as primeiras pedras de variadas barragens, etc. Sócrates revelou um ar orgulhoso, Passos Coelho ficou vermelho de inveja e o filho dilecto de Boliqueime, mais uma vez, ficou quedo e mudo como um penedo, como é seu estilo. E ainda bem, pois lá diz o povo: mais vale estar calado e passar por… (bip censório) do que falar e provar que realmente… (bip censório).

 

Um estudo do Infarmed patenteia que na última década o consumo de psicofármacos cresceu 52%. Os portugueses tomaram mais 177% de antidepressivos, 140% de antipsicóticos e 11% de ansiolíticos. Por isso é que os especialistas afirmam, e com razão, que o país está cada vez mais deprimido, psicótico e ansioso. Pudera. Anda deprimido por causa do Governo, anda psicótico por causa do Presidente da República que nem preside nem sai de cima, e anda ansioso por causa do Passos Coelho. E este vosso amigo também contribuiu, e continua a contribuir, para mais um recorde nacional que põe a Europa inteirinha a olhar para nós com cara de caso. Às segundas, quartas e sextas tomo o meu xanaxsezinho, às terças, quintas e sábados ingiro o meu longactilzeco e aos domingos engulo o meu lexotam e ponho-me a ver os campeonatos de bilhar transmitidos pela tv cabo.

 

Apesar de o mundo nos estar a cair na cabeça aos pedaços, tenho um luxo de que não prescindo. De ano a ano vou até à minha aldeia para poder libertar-me, por alguns dias, do ruído violento da cidade. E foi o que fiz este fim-de-semana. Durante todo o caminho matutei nas palavras do sexólogo Frascisco Allen Gomes sobre a diversidade das paixões. Ei-las: “Conheci uma mulher que a primeira vez que teve um orgasmo foi quando viu uma nota numa pauta.” De seguida lembrei-me que eu, quando recebi o meu primeiro ordenado, uns insípidos 16 contos (no ano de 1980), quase tive uma erecção quando olhei para as notas de mil. Mas daí a um orgasmo, valha-me Deus!

 

Numa curva mais ousada, curvei tanto e tão abreviado que me veio à lembrança Manuela Ferreira Leite e a sua confissão, ao Expresso, por entre sorrisos e brincadeiras, onde manifesta a sua predilecção por bacalhau, um bacalhau especial que ela aprendeu a cozinhar nas aulas de culinária que teve no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, enquanto frequentava a curso de Economia. Depois lembrei-me do orgasmo da paciente do senhor sexólogo, relacionei-o com a canção do Bacalhau Quer… (bip censório) popularizada pelo menino Saul Ricardo e daí passei à memória do sorriso da senhora ex-ministra das finanças do PSD e assustei-me. Parei e hiperventilei, como um valente, para acalmar. Após meia hora de exercícios, voltei ao lugar e resolvi definitivamente deixar de pensar na política, na sexologia e na economia e concentrar-me no jazz que brotava a jorros pelas colunas da aparelhagem do meu Audi A3, que são uma maravilha. Nunca Miles Davis me soou tão bem.

 

Quando cheguei a casa, a minha tia Belmira tinha a estufar no pote duas perdizes. Depois de me aquecer um pouco à lareira, baixei a tampa do escano e devorei-as com o requinte dos glutões.

 

Eu venho à minha aldeia para dormir tranquilamente, para ouvir os galos, os sinos da igreja sem altifalantes e os distintos sons da natureza.

 

Ainda existe por cá um velho homem, um pobre de espírito, que sempre acreditou na inteligência dos animais e por isso continua a viver feliz da vida. Apesar do ar de cemitério da localidade, não sofre de depressão. Vive praticamente com a bicharada lá em casa. Quando se sente só trava longas conversas com as vacas, a burra, os porcos, as galinhas, as cabras e as ovelhas. As pessoas das pequenas localidades passam grande parte do tempo a pensar no universo, ao contrário das pessoas da cidade que, educadas e cultas como são, pensam sobretudo umas nas outras. O meu avô morreu a olhar para uma nogueira que havia do outro lado do ribeiro. Hoje morre-se a olhar para a televisão.

 

Li algures que viver é escrever a lápis mas sem borracha. O que nos vale é que as pessoas morrem a pensar noutra coisa. E por aqui me fico, com licença de vossas excelências.

 

 

PS - Sugestões para ajudar a relaxar e a dormir melhor e também a desenvolver o raciocínio, a memória e a fazer contas por causa da crise, da poupança, dos cortes dos ordenados e da declaração do IRS.

 

Primeiro: Conte de 1000 até onde puder de sete em sete. Eu começo e o estimado leitor continua: 1000, 993, 986, 979, 972, etc.

 

Segundo: Recite a tabuada do oito, que é uma das mais difíceis. Nós ajudamos: 8x0=0; 8x2=16; 8x3=24; 8x4=32, 8x5=40; 8x6=48; 8x7=56; 8x8=64; 8x9=72; 8x10=80. Agora feche o olhos e entoe novamente. Se não conseguir, abra-os e recite de novo a tabuada como se estivesse a rezar as vezes que for necessário.



publicado por João Madureira às 07:00
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