Segunda-feira, 14 de Março de 2011

Em busca do tempo perdido

 

O meu amigo J. é muito parecido com o poeta Pedro Tamen, nomeadamente na bonomia que lhe esconde um apontamento levemente depressivo. Mas apenas nisso, pois o J. não gosta de poesia e detesta o ensaio. No entanto é um fanático do romance. E se o Pedro Tamen teve a pachorra de traduzir para português o roman-fleuve da Marcel Proust Em Busca do Tempo Perdido, em francês À la Recherche du Temps Perdu  [obra dividida em sete livros: Du côté de chez Swann (No caminho de Swann 1913); À l'ombre des jeunes filles en fleurs (À sombra das raparigas em flor, 1919), que recebeu o prémio Goncourt desse ano; le Côté de Guermantes (O caminho de Guermantes, publicado em 2 volumes de 1920 e 1921); Sodome et Gomorrhe (Sodoma e Gomorra, publicado em 2 volumes em 1921-1922); la Prisonnière (A prisioneira, publicado postumamente em 1923); Albertine disparue (A Fugitiva - Albertine desaparecida, publicado postumamente em 1927) (título original: La Fugitive); le Temps retrouvé (O tempo reencontrado, publicado postumamente em 1927)], o meu amigo já conseguiu ler os dois primeiros volumes, e olhem que existem poucos portugueses capazes de se gabarem de semelhante feito. Além disso, o meu amigo J., à semelhança do poeta tradutor, faz questão em não usar gravata e, tal como ele, fez uma jura de nunca mais ir a vernissages.

 

No passado fim-de-semana, o meu amigo veio juntar-se a nós com um sorriso nos lábios, ele que é carrancudo e apenas costuma gargalhar nos anos bissextos. O J., mal se sentou, comunicou, extasiado, que tinha caído mais um tabu, o que muito nos admirou, pois o meu amigo é a favor da manutenção de quase todos os tabus, desde que em 1994 Cavaco Silva inventou o primeiro grande "tabu" da nossa democracia sobre uma hipotética recandidatura nas legislativas do ano seguinte. Dúvida só desfeita muito próximo das eleições, quando deixou a liderança do PSD para Fernando Nogueira, com o sucesso que todos lhe reconhecemos.

 

“Afinal há sexo depois dos 65 anos”, exclamou o J. tão inadvertidamente alto que chocou algumas senhoras próximas da reforma que estavam na mesa ao lado. “No entanto é preciso tomar atenção com os comprimidos para a hipertensão, pois parece que tiram a erecção.”

 

Vai daí, eu para dar um arzinho da minha graça, lembrei que um cantor pop de 16 anos se queixou aos jornais de que uma mãe lhe atirou um soutien para o palco com o número de telefone no seu interior. “Agora imaginem se alguma avó mais atrevida se lembra de enviar uma das suas enormes cuecas com o endereço de email lá dentro. Os concertos podem vir a degenerar em lutas familiares. Uma sociedade onde um rapaz de 16 anos pode ser objecto de assédio sexual por parte de três gerações de mulheres não é lá muito tranquilizadora. Pode ser democrática, igualitária, solidária, mas deixa-me deveras apreensivo. Daí à pornografia vai um passo. E eu abomino a pornografia.”

 

O R. pegou na deixa e, azedo e de direita liberal como é, veio logo espalhar peçonha: “Eu, apesar de não apreciar essa forma de expressão artística, concordo com o actor James Franco (nomeado para o Óscar de melhor actor pelo seu papel em 127 Horas) quando diz que se devem respeitar os ‘actores da pornografia porque eles não estão apenas a fazê-lo. Eles estão a vendê-lo. É a mesma coisa com um beijo. Não se trata do beijo que se sente melhor, é a imagem que conta’.

 

Eu tentei trabalhar, ou atrapalhar, a conversa, mesmo sem querer: “Ora explica-te lá melhor!”

 

Mas naquela conversa de surdos, foi o F. que resolveu dar a cara. Por isso olhou para nós como se estivesse noutro lado qualquer menos ali e disse com toda a calma do mundo: “Na actual situação política é extremamente complicado ir para eleições.”

 

Novamente me meti ao barulho e tentei trazer para a conversa as revelações do Wikileaks sobre Portugal. E olhem que elas são muito engraçadas. Por exemplo, relativamente às nossas chefias militares referem que “há em Portugal uma cultura nas Forças Armadas em que, quase sempre, a melhor decisão que se pode tomar é não tomar decisões. Até para uma banda tocar é preciso uma autorização de topo”. E entretanto o que é que os militares de topo fazem? Segundo revela o Wikileaks esperam o tempo suficiente, pois como muito bem dizem os oficiais, dessa forma chegarão a coronéis ou a generais. Por isso é que Portugal tem mais Generais e Almirantes por soldado do que quase todas as outras forças armadas modernas.

 

Vindo da casa de banho, o R. aproveitou também para malhar forte: “Enquanto os militares esperam sentados mais uma promoção, os agentes em greve da PJ deixaram escapar, durante uma operação de pedofilia, dois homens suspeitos. Entretanto a nossa geração de jovens mais qualificada de sempre aguarda sentada nas cadeiras da sala dos seus pais que lhe dêem alguma coisa para fazer, que lhe confiram sentido, que lhe outorguem um futuro.”

 

“Eu de política não percebo nada, nisso sou como o novo líder da JSD de Chaves, mas sempre vos digo que é necessário que todos poupem, a começar pelo Estado”, disse ironicamente o L.

 

“Ainda mais?”, perguntou indignado o F. “Qualquer dia acontece-nos o mesmo que ao burro do Tio Chico que, sob rigorosa vigilância do seu dono, quando já estava a habituar-se a viver sem comer, morreu assim sem mais nem menos.”

 

 

PS – Para ajudar a “Geração à Rasca”, aqui fica parte do seu manifesto que poderá consultar na íntegra em http://geracãoenrascada.wordpress.com

 

“Nós, desempregados, ‘quinhentoseuristas’ e outros remunerados, escravos disfarçados, subcontratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal, protestamos para que todos os responsáveis pela nossa actual situação de incerteza – políticos, empregados e nós mesmos – actuem em conjunto para uma alteração rápida desta realidade, que se tornou insustentável.”



publicado por João Madureira às 07:00
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