Segunda-feira, 21 de Março de 2011

Estar ou não estar… à rasca

 

De repente uma geração descobriu que estava à rasca. E a descoberta bateu certo com a realidade. Depois organizou-se fora dos partidos e dos sindicatos tradicionais e veio para a rua gritar. E, apesar do improviso, fez-se ouvir. Está claro que este grito de alerta pôs à rasca toda uma sociedade. Mesmo os que mostram muita compreensão pela nova realidade social e política, também estão à rasca. Só que esta “nova” realidade é uma verdade de muitos séculos.

 

Carlos Santos Ferreira, presidente do BCP, disse em entrevista que o convidaram para dar uma lição e por isso teve a ideia de falar das crises dos últimos 500 anos. Só que ao fim de algum tempo desistiu, pois já ia na terceira ou quarta grave crise e ainda ia nos anos 1500.

 

E olhem que é verdade. Ando a ler a História de Portugal, coordenada pelo Rui Ramos, e se há coisa em que Portugal seja coeso é nas crises. A palavra crise é a que confere coerência à nossa já longa história. E com isto quero dizer que houve sempre gente à rasca. Gerações e gerações de portugueses sempre à rasca.

 

Por exemplo, a minha geração viu-se à rasca para estudar, vestir e até comer. A geração anterior viu-se mesmo muito à rasca com a guerra colonial. E a geração dos meus pais viu-se tremendamente à rasca para sobreviver. Nessa altura em cada família nasciam doze filhos para chegarem à idade adulta três ou quatro. Havia muita fome. Não havia luz na maioria das localidades, não existia televisão e a rádio era uma raridade muito apreciada mas quase nunca escutada. E andavam descalços. Trabalhavam como escravos sem direito a nada, a não ser ao sol e à chuva. Andavam sujos, esfarrapados. E descalços. E então que dizer da geração dos pais dos meus pais. Viviam quase na idade média entre animais, em casebres onde mal entrava a luz, onde não havia quartos de banho, nem água corrente, nem assistência social, nem subsídio de desemprego, nem esperança. Onde quase toda a gente era analfabeta. Onde a justiça era feita à base da porrada e da aplicação de sentenças ao deus dará. Pagava-se ao padre, ao senhor doutor e ao regedor. Devia-se na taberna, na farmácia e no alfaiate. Bebia-se a água das fontes, comia-se o caldo com unto, batatas com batatas, pão de quinze dias, carne gorda e salgada e peixe tão fresco como o da aldeia do Astérix. Quase toda a gente andava descalça. Dispenso-me de recuar um pouco mais no tempo. Falta-me a coragem.

 

Mas voltando ao tempo presente. O grande problema nacional é que a geração que está à rasca não sabe lá muito bem o que é estar verdadeiramente à rasca. E cheira-me que ainda vai ficar mais à rasca, pois à rasca estamos todos. E quando todos estamos à rasca, os que estão mais à rasca tendem a ficar ainda mais à rasca. E olhem que aquilo que vos digo não é ficção. Basta recuar 50 anos para, como já expliquei, batermos com a consciência na realidade. Anda por aí muito jovem à rasca – e a maioria dos que vi na televisão são disso bom exemplo –, que para eles a fome é apenas uma palavra, andar descalço é coisa dos povos indígenas africanos ou dos índios da Amazónia, e não ter luz nem água canalizada em casa é uma ficção pré-histórica. Isto para não falar dos que, à custa dos pais, comem e bebem até ficar obesos, vestem-se, ou despem-se, com roupa de marca e até se deslocam em carros nada baratos.

 

Pois é verdade que muitos dos jovens que dizem estar à rasca ainda não se deram conta que mais à rasca do que eles estão os seus pais. E à rasca está o primeiro-ministro que não sabe como pode sair do poder sem ser acusado de desertor. À rasca está o líder do PSD que ainda não atinou com a forma de conseguir com que José Sócrates fique no poder até isto rebentar sem ser acusado de frouxo. À rasca está o Governo que não sabe se governa ou desgoverna ou tudo não passa de um pesadelo. À rasca está a oposição de direita que, apesar de contestar as medidas tomadas pelo executivo socialista, sabe que quando for para lá apenas lhe resta aplicar as mesmas soluções sugeridas (impostas) pela Europa desenvolvida. À rasca está a oposição de esquerda com o movimento dos jovens à rasca porque lhes está a tirar o direito (divino) do protesto, da indignação e da moralidade. À rasca está Cavaco Silva que não atina com o método de mandar embora o Governo sem ser acusado pelos socialistas de proceder da mesma forma que os presidentes Soares e Sampaio, que tão criticados foram pelo PSD e pelo CDS.

 

Estar à rasca não custa muito nos tempos de hoje, o que custa mesmo é sair da situação com perspectivas de futuro que não sejam alicerçadas na fantasia. E gente à rasca haverá sempre. Por isso, minha gente, o que é que o povo quer? Comprar um carro novo. E o Continente está cheiinho de gente, as estradas entopem com o trânsito, os restaurantes estão à pinha, as discotecas e os bares vendem cerveja como água. As universidades estão a abarrotar de gente que sabe que o curso onde foram desencalhar apenas lhes dá direito a ficarem mais à rasca. No entanto insistem. O que eles querem ser é licenciados. Para quê é que não sabem lá muito bem. Mas também a quem é que isso interessa? Diz o povo que não há pior cego do que aquele que não quer ver. E a geração à rasca anda há já demasiado tempo com óculos de sol de marca ray ban que os seus pais lhe ofereceram no começo da Primavera.

 

 

 

PS – Receitas para ajudar a Geração à Rasca a combater a crise.

 

Lagostins com alho e ervas aromáticas

 

Ingredientes (para 2 pessoas de apetite circunspecto, ou comedido) – 12 lagostins crus com casca e sumo de meio limão; 2 dentes de alho previamente esmagados; 3 colheres de sopa de salsa fresca picada; 1 colher de sopa de manteiga amolecida; sal e pimenta; quartos de limão, pão estaladiço e alface

 

Confecção: Um – Lave e descasque os lagostins. Com uma faca afiada, faça uma incisão ao longo da face dorsal e retire a tripa preta.  Dois – Misture o sumo de limão com o alho, as ervas e a manteiga até formar uma pasta. Tempere bem com sal e pimenta. Espalhe a pasta sobre os lagostins e deixe marinar durante 30 minutos. Três – Leve os lagostins a grelhar debaixo de um grill pré-aquecido durante 5-6 minutos e mais alguns segundos. Em alternativa, aqueça uma frigideira e frite os lagostins na pasta até estarem cozidos. Transfira os lagostins para pratos quentes e regue-os com os sucos. Sirva de imediato com os quartos de limão, pão estaladiço e alface.


publicado por João Madureira às 07:00
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