Quarta-feira, 23 de Março de 2011

O Poema Infinito (40): combustão fria

 

Arde devagar a inclinação do tempo. Animais prolixos aprendem a impaciente luta da sobrevivência. Torrentes infindáveis de outonos comovidos dançam devagar o assombro da resignação. Há um homem triste com orvalho dentro da alma que suspira imagens tremendamente puras e frias. As suas mãos sobem pelo corpo unindo os fragmentos do desejo. E fuma coisas tão tristes como a própria tristeza. Na sua cara bate a luz glauca dos archotes antigos. É perseguido pelo admirável pensamento das equivalências da ressurreição. Oiço o seu respirar por dentro das palavras como se a morte fosse um pensamento. Nele a imagem do tempo constrói sorrisos instantâneos. A seu lado alguém canta a devastadora mágoa do abandono. Esse homem vive na profunda eternidade do momento. E voa por dentro do silêncio. E chora canções admiravelmente tristes. E dança em cima dos símbolos apagados da existência. Os seus dedos purificam as pedras tumulares e ligam a vida à carne e preenchem a eterna desilusão da existência. Oiço-o cantar de novo uma música brusca e os meus olhos enchem-se de luar. As crianças vestem-se com campânulas de vento e gemem a melancolia dos gestos. O mundo é agora um livro de espelhos. Penso na beleza oculta dos peixes e dos desejos. Deus sorri rapidíssimo sobre as imagens bruxuleantes da beleza. Trinta moedas ainda queimam na memória dos traidores. Esse é o fruto da amizade. Apagam-se as luzes no coração dos simples. A sua alma crente cai nos degraus do gólgota. 


publicado por João Madureira às 07:00
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