O Homem Sem Memória
57 – Pedro três vezes negou Jesus. Outras tantas negou Luisinha o José. Negou-o quando disse que não tinha namorado, quando afirmou que não gostava dele e quando revelou que, verdadeiramente, nem sua amiga era. Três vezes passou o José em frente da casa da Luisinha. E três vezes regressou de lá mais triste que a própria tristeza. Apesar de ainda a amar, na sua memória o rosto da Luisinha começou a transformar-se numa fotografia cada vez mais desfocada. E, nesse entretanto, a sua amada passou da negação à traição. Começou a sorrir, com um sorriso daqueles que apenas se vêem no cinema, e a farfalhar com os piropos de um adónis mais bronzeado do que um rebuçado da Régua. Apaixonou-se. Ou quase. Esqueceu-se das promessas de amor eterno ditas e juramentadas a lágrimas grossas no dia anterior à ida do José para o seminário. O filho do guarda Ferreira até era bom rapaz, relativamente bonito, relativamente educado, relativamente culto, mas era pobre, de famílias humildes, filho de gente rude. E andava a estudar para padre. Apesar de jurar que depois de concluir os estudos no seminário estava determinado a abandonar a carreira eclesiástica para se casar com a Lusinha, a Luisinha nunca acreditou que a promessa fosse para valer. A não ser padre, a que cargo com algum prestígio social é que o José podia aspirar? E o adónis da Póvoa era um regalo para os seus olhos de saloia consumada. Nestas coisas as raparigas são como os passarinhos que se deixam hipnotizar pelas serpentes e vão enfiar-se tolamente na sua boca sem emitirem o mais leve pio. Tonta de excitação, deixou-se apalpar e beijar sem sequer ter feito qualquer tipo de contrato verbal com o rapaz de bronze. A Luisinha todos os dias pecava por palavras, pensamentos, actos e omissões e uma que outra perversão masturbatória.
Por seu lado, o José, que não tinha cão para caçar, começou a caçar com um gato. O seu desespero sentimental metamorfoseou-se em vingança luxuriosa. Se a sua namorada o traía com um veraneante de meia tigela – e a notícia chegou-lhe em forma de carta redigida por uma das muitas primas da Luisinha – ele estava autorizado a desmanchar o seu contrato e a procurar amparo feminino. Foi à procura da irmã do Alcino. Os seus suspiros na igreja tinham-lhe chegado aos ouvidos em forma daquilo que eram: apelos sexuais.
Um dia fez-se visita do Padre e, durante os momentos de espera, pois o senhor abade dormia todos as santas tardes de Verão a sua sesta retemperadora, combinou encontrar-se com ela. No domingo pediu emprestado o macho a um colega do seu pai e dirigiu-se para os lados do Senhor da Piedade. Disse à mãe que ia passar lá todo o dia a estudar, a rezar e a meditar. A Dona Rosa fez-lhe uma merenda digna de um bispo, disse-lhe para levar um liteiro e uma toalha de linho onde pôr a mesa. “Levas algum colega contigo?”, perguntou. “Não mãe, vou sozinho”, respondeu seco. Ao que ela retorquiu, como era seu feitio: “Mais vale só que mal acompanhado.”
A irmã do Alcino foi ter com ele montada numa burra já muito velha, mas ainda com a força suficiente para ir e vir sem morrer pelo caminho. Além disso, a rapariga pouco mais pesava do que uma ovelha.
As montadas passaram todo o dia à sombra dos carvalhos a pastar a erva tenra que crescia junto a um rego de água fresca. Como o José tinha pedido as chaves da igreja ao Padre Zé, os jovens amigos resolveram amar-se dentro da sacristia, não fosse dar-se o caso de por ali passar algum mirone. Os amantes consumiram todo o santo dia a fornicar e a falar de Deus e do pecado. Ele leu-lhe lindas passagens da Bíblia onde o amor desabrochava por entre os homens para glorificação de Deus e das suas ovelhas. Ele benzeu-lho o sexo. Ela fez-lhe alguns felatios inocentes. Três vezes a penetrou com avidez. Ela correspondeu com toda a delicadeza de fêmea. No fim da primeira vez, caiu algum sangue no liteiro. Ele, a princípio, pensou que tinha escolhido mal o dia. “Só faltava vir-te agora a menstruação!”, disse desanimado. Ela olhou para ele com um sorrido doce e com os lhos brilhantes e respondeu: “Não é a menstruação, tolo, foi a minha virgindade.” “E então aquelas coisas no palheiro?” Aquilo não foi nada, com as vossas minhocas só conseguistes fazer-me cócegas. E eu só fiz isso porque a minha mãe, que sofre de uma doença ruim, necessitava urgentemente de comprar remédios. O dinheiro que o meu pai ganha estrafana-o todo em vinho.” “Deus te abençoe Maria.” “Não sei se pode, José. Eu peco muito.” “Claro que pode. E tu bem o mereces.” “Este é o meu corpo que te foi entregue. Este é o meu sangue, o sangue da vida…”

