Amigos
O meu amigo F. anda muito sorumbático. A sua equipa de futebol vai perder o campeonato e seu partido meteu-se numa alhada da qual não vai conseguir sair sem perder alguns anéis e, estou em crer, um que outro dedo. Agora deu-lhe para tecer loas, não ao Sócrates, que foi chão que já deu uvas, mas à água. Tem por ela uma espécie de amor supersticioso, diz que nada há melhor para o homem, nem sequer a mulher. Eu permiti-me discordar. Mas ele insistiu no sabor da água, no som da água, na vista da água. Diz que nada o acalma mais. Depois põe-se a chorar. E confessa que é um amante do que é pobre e do que é fraco. Diz que lá na quinta, quando recebe a visita dos netos, sente subir por ele acima tamanha saudade que se põe a acariciá-los com tal intensidade que por vezes quase os magoa. Agora tudo o que vive lhe merece amor. Ele que foi uma criança travessa, um adolescente irreverente e um adulto belicoso, agora não consegue pisar um formigueiro e condói-se até ao pranto com a sede de uma planta. Deprimido como anda, deu-lhe para descobrir, através de uma fotografia antiga publicada num blog, uma grande semelhança do seu filho com um avô da sua esposa, que diziam meio louco, e por ter traído os republicanos por trinta dinheiros se enforcou na figueira que ainda subsiste numa das suas terras abandonadas. No entanto, e apesar de tudo, gosta do seu país. Põe-se de pé sempre que o hino toca, e chora se assiste ao hastear da bandeira quando o nosso compatriota Obikwelo ganha uma medalha de ouro.
De outra massa é feito o R. Esse é todo derrotista. Sente-se mal no país. Acha mesmo que Portugal não o merece. Diz que o país importa tudo. Até putas e atletas. Importamos leis, ideais, teorias, romances, filosofias, políticas, assuntos, ciência, tecnologia, estética, ética, estilo, moda, indústria, futebolistas, maneiras, doenças, remédios e anedotas. Vem tudo em contentores. O progresso custa-nos os olhos da cara. E não presta porque é em segunda mão. Não foi feito por nós e, muito menos, para nós. A forma é mais larga, mais alta e mais funda. Nesta sua nova fase, que pensamos passageira, como tudo nele, recita-nos uns poemas mexerucos que diz escrever, imitando a voz do saudoso João Villaret, animando-se com o decorrer das cacofonias e das rimas, ferindo as palavras mais delicadas, beijando as locuções mais ásperas, soltando interjeições com uma sonoridade tonitruante nos finais de cada estrofe. Ele, que já foi político, queixa-se agora penosamente da sua falta de memória. Essa é a principal doença que ataca quem foi servidor da polis. No entanto critica nos adversários a pouca memória em relação ao passado recente. Uma coisa que é indispensável a quem segue a vida pública.
Já o L. queixa-se amargamente da falta de elites em Portugal. E, já agora, da falta de pessoas e de pessoal. Quer-se um primeiro-ministro vai-se buscar aos partidos maioritários um burocrata sem carisma, currículo e inteligência. Quanto mais cinzento melhor. Quer-se um presidente vai-se buscar um ex-primeiro-ministro maldisposto, frustrado e reformado ao baú dos partidos maioritários. Quer-se um varredor para o serviço de limpeza municipal vai-se buscar um dos militantes desempregados do partido que ocupa a cadeira presidencial na autarquia do concelho. Quer-se arranjar um gestor para um banco vai-se à procura de um ex-ministro de um governo dos partidos maioritários. Quer-se arranjar um canalizador começa a busca da agulha no palheiro.
Apesar de tudo aprecio o J. que colecciona bustos dos tiranos (Hitler, Lenine, Estaline, Mao, Fidel, Salazar, Mussolini, Pinochet, etc.) para transformá-los nos seus alvos de injúrias. O J. é muito engenhoso. E muito inventivo. Sobretudo quando odeia. Gosta do seu bocadinho de espírito. Por alguma razão é o meu amigo mais chegado.
Motivo de chacota no grupo é o C. que, agora nos cinquenta, resolveu apaixonar-se de novo, e por uma emigrante do Leste loira e roliça como uma pêra Williams. É o amor em tempo de crise. Escreve-lhe cartas de amor finas, delicadas e frescas. Diz-se surpreendido com a felicidade em olhar as estrelas quando o céu está limpo, ou em ir ao mercado pela manhã comprar flores para oferecer à mulher amada. Tem na alma um eterno sorriso que os seus lábios repetem como se fosse tolo de todo. Dá pena. Mas também apela à ternura do grupo. E se há coisa que nós sejamos é ternurentos. É a ternura dos cinquenta.

