O Poema Infinito (42): as mulheres sábias
As mulheres sábias matam os pássaros do desejo para dançarem enfeitadas com as suas plumagens. Apelidam-nas de cruéis. Elas inclinam a cabeça e isolam-se em movimentos metálicos cheios de dor. Os seus corpos misteriosos estendem-se nos caminhos tranquilos das montanhas e esperam. As suas mãos respiram o sono do tempo, a distância dos rios, o perfume dos lençóis de musgo. Os seus corpos respiram os caminhos estreitos de madressilvas e os ecos do voo dos pássaros. Uma textura fina nasce do cântico frio do sono. A solidão desce as escadas do silêncio e grita gestos perplexos. Um colorido de luz fica imobilizado na memória dos curandeiros cegos. As mulheres sábias retiram-se agora presas no clamor dos guerreiros assombrados pela morte dos seus inimigos. Dizem acreditar no amor. E depois gritam poemas mudos de pavor. Os corpos esvaziam-se do desejo. Um delírio espesso ergue-se na madrugada. As mulheres sábias acendem agora fogueiras. A vontade do amor é afogada pelo desejo súbito da chuva. Estão tristes as mulheres sábias porque os seus homens dormem o sono da morte. Por isso não conseguem comer, nem beber, nem dormir. Dói-lhes a claridade do sofrimento das mulheres dos guerreiros derrotados. Dói-lhes o tempo de não ter tempo. Dói-lhes a espera. Doem-lhes os filhos que não vão nascer. O medo é agora uma tontura escrita em pergaminhos reais. Por isso choram. A memória fica coberta de sangue. Os guerreiros acordam aflitos e começam a dançar em redor das fogueiras. Os campos abrem-se para receber os corpos dos desaparecidos. Nas montanhas justificam-se os rios por entre as árvores perplexas. Arrepios longínquos prolongam-se pelas estradas do império. Os gritos de vitória soam como verdades inúteis. As mulheres sábias vão por fim pentear-se nos espelhos correntes dos rios que lavaram as mãos sujas de sangue dos guerreiros vitoriosos.

