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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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08
Abr11

O Homem Sem Memória

João Madureira

 

58 – Desta vez foi para o seminário sozinho e a assobiar. E fumou na paragem para almoço. E riu-se. E emocionou-se quase até às lágrimas. E sentiu-se um macho vencedor. E ainda leu boa parte da Via Sinuosa de Aquilino Ribeiro. Foi mesmo capaz de desculpar o choradinho da mãe, a gaguez do pai, as lágrimas sentidas do Virtudes e as promessas de amor eterno da irmã do Alcino. Talvez fosse um pecado enorme aos olhos de um Deus bondoso, mas da rapariga que lhe entregou a virgindade na sacristia apenas lhe desejava o físico. O amor tem de ser outra coisa. Obrigatoriamente. O amor é muito mais do que possuir um corpo. É muito mais do que penetrar uma vagina, do que apalpar seios e nádegas, muito mais do que beijos. O amor é como uma febre partilhada. É o ciúme doloroso de mais alguém poder partilhar, sequer, um olhar da mulher amada. O amor é uma insatisfação constante. Uma necessidade inadiável. Só quando dói é que o amor é verdadeiro. E como agora não sentia isso por ninguém, concluiu, e bem, que já não amava, que nunca tinha amado verdadeiramente alguém. A Luisinha ainda foi ícone para uma ou outra masturbação em noites de instabilidade psicológica. A irmã do Alcino ainda foi tema de conversa entre si e o padre que lhe servia de orientador espiritual. Depois ambas ocuparam o espaço dos cromos da bola ou dos santinhos do missal. Até mesmo as zonas erógenas foram sendo diluídas pelas nuvens do tempo. Delas ficou uma terna saudade. A mesma que passou a dedicar aos amigos do peito, ao sol de Agosto, à neve de Inverno, à lareira nas noites de geada, aos chouriços de cabaça.

Transformou-se num cavaleiro solitário. Cada vez mais metido dentro de si. Rezava muito. Meditava ainda mais. Estudava o suficiente. E lia com avidez todos os livros considerados malévolos. Especialmente os evangelhos apócrifos.

Muitos dos seus colegas, pretextando frio e solidão, deitavam-se nas camas uns dos outros. Até alguns padres se atreveram a exercício tão pouco recomendável aos olhos da Madre Igreja e aos homens de um prazer só. O frio era muito. Era sim senhor. Mas aquela necessidade premente, urgente, convergente, indiciava algo mais do que isso. A necessidade, dizem, cria o órgão. Mas o José, para o bem e para o mal, era muito senhor do seu cu. E do seu pénis também. O pecado da depravação era-lhe inconcebível. Mais facilmente acreditava na infalibilidade de Deus do que numa relação homossexual. Com muita mais facilidade acreditava na virgindade de Nossa Senhora do que na possibilidade de obter prazer através da sodomia. Era, sempre foi e sempre será, uma criatura prudente. Viu muita coisa, ouviu ainda mais, mas sempre soube ver, ouvir e calar. Não era defeito, era mesmo feitio. Mas, por mais que tentasse disfarçar, fugia dos friorentos e solitários como o diabo da cruz. Muitas vezes lhe perguntaram se não tinha frio. Outras tantas respondeu colérico: “Vai-te foder.” Ao que os friorentos, ou os mais gozões, retrucavam: “Dizer asneiras é pecado.” Ao que ele invariavelmente respondia: “Muito maior é o pecado da sodomia.” Ao que o Padre Manuel, o irmão mais feminino do seminário, contrapunha: “Calai-vos, por amor de Deus. O senhor reitor pode ouvir”.

Numa coisa os seminaristas friorentos e solitários eram heróis: no silêncio. Comiam e calavam. Nisso eram muito discretos. Muitos deles acreditavam, ou faziam que acreditavam, que aquilo que não se vê não existe. E à noite todos os gatos são pardos. E a carne é pecadora. Toda a carne. E Deus não peca porque é feito de outra coisa. De um material neutro, incolor, inodoro, insípido, incombustível. Deus não peca porque não tem frio. Porque não se sente só. Porque não tem que procriar. 

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